quarta-feira, 29 de maio de 2013

Morrer, mas não muito

Eu sou um anormal que não é afetado pela morte como a maioria das pessoas. Acredito na morte como parte natural da vida (pelo menos dos seres sexuados... a morte em organismos que se reproduzem por divisão celular ou cissiparidade, onde não há propriamente "envelhecimento", é um negócio estranho e alarmante :^P). E que a matéria, ao deixar de ser viva, retorna ao universo de onde veio... e se há um espírito (cuja existência ou não também não me afeta), feito de energia, terá o mesmo destino. É um destino glorioso para seres que são só "pó e sombra", como diziam os romanos, retornar ao universo, se diluir, integrar tudo. Não há porque ter medo. Não há porque lamentar.

Mas tem algo que a internet está fazendo que pode estar transformando a maneira como eu e todo mundo vemos a morte. Hoje qualquer um pode deixar a sua existência por escrito em redes sociais. E morrer logo depois, de câncer, de ataque cardíaco, suicídio, acidente de carro, que seja. Claro, isso sempre aconteceu. Ulisses D'Azevedo dos Andradas, um sujeito que eu acabei de inventar, escreveu uma carta ao seu irmão sobre seus planos de negócio, saiu na rua, e foi esfaqueado em 1889.

A diferença está na mídia. O papel envelhece. Uma carta ou um livro precisam ser resgatados de uma pilha ou uma prateleira, de uma caixa, porque surgiram tantas coisas depois deles... o papel sempre permanece no passado. A morte de alguém que registrou a sua vida há 10, 50, 100 anos está tão distante de nós quanto o tempo que se passou. Achava-se que a revolução aconteceria com o advento da fotografia, e depois do cinema, da TV. Mas a imagem em papel ou celulóide também envelhece.

Na internet a mídia nunca envelhece. Os sites estão sempre ativos, sempre disponíveis (desconsidere os servidores que saem do ar), sempre próximos e atuais. E, nas mídias sociais, a vida é registrada no tempo presente. Sempre que se lê algo na internet, o que nós entendemos instintivamente é que o que está sendo lido foi escrito agora, a despeito da data. Já tive respostas a posts antigos, com comentários inflamados ou congratulações, como se eu tivesse acabado de escrever aquilo, e na verdade eram ideias tão antigas e argumentos que eu já havia refutado por mim mesmo e abandonado, que eu nem soube como replicar. Para o leitor na internet, o que está escrito é sempre novo, é sempre agora.

E, novamente, com o advento das redes sociais, a massificação da internet e a transformação da rede numa espécie de quadro de recados onde cada conhecido deixa o seu (mas não necessariamente para você), a probabilidade de acontecer o improvável aumenta mais e mais. Quando ocorre a morte de um internauta, acontece algo extraordinário com a nossa mente: é como se o morto falasse, estivesse reclamando do Bolsa Família ou postando uma foto do seu último almoço. Tem a data da postagem ali no canto, mas o conteúdo está no presente, a mídia está no presente, e o leitor está no presente. Por isso, a morte de alguém online é algo muito, muito esquisito, porque ela continua existindo sem existir. O morto não fica mais para trás, ele é carregado pela dinâmica da vida pelos tempos afora.

Vou deixar a ideia pela metade por falta de tempo. Mas pense como o culto aos mortos mudaria substancialmente se os mortos não morressem totalmente.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Tem gente que debate, tem gente que só bate

Tenho um relatório da UNICEF, publicado em 2007, nas mãos. Nele eu vejo dados interessantes: do universo da população brasileira, a proporção de adolescentes de 12 a 17 anos (a faixa de idade em que o jovem infrator pode sofrer medidas sócio-educativas ou privados de liberdade na legislação atual) em conflito com a justiça (que tenham cometido crimes) é de 0,1583%. Desses infratores, apenas 1,4% cometeram assassinatos, sendo os demais delitos considerados leves, principalmente crimes contra o patrimônio (furto, roubo, depredações), ou relacionados ao tráfico de drogas. Fazendo uma matemática macarrônica, do universo de cerca de 30 milhões de brasileiros entre 12 e 17 anos (segundo o IBGE, em 2010), 0,0022162% dos jovens infratores cometem crimes contra a vida humana. Umas 700 pessoas.

O relatório ainda diz que, entre jovens internados em unidades onde são privados de liberdade, o índice de homicídios registrados por essa população sobe para 15% do total de crimes registrados.

Ao mesmo tempo, em 2002, a causa externa de óbito (ou seja, não causada por doenças) mais comum em menores brasileiros foi o homicídio, correspondendo a 40% das causas de morte externas.

Ou seja, somos um país que assassina seus jovens, fabrica criminosos profissionais com políticas carcerárias obsoletas, e ainda espuma pedindo que a maioridade penal seja rebaixada para 16 anos, o que vai abranger uma pequena porção dos 0,1583 jovens infratores do país, causando um impacto sensacional na segurança pública.

Eu, pessoalmente, duvido muito que bater mais forte do que já se bate vá fazer alguma diferença. Talvez dê, já que eu não entendo de nada disso, e parece ter surgido muitos especialistas no assunto ultimamente. O que eu acho mais interessante é que muitos dos que pedem o sangue dos jovens infratores são os mesmos que acham ridículo que homossexuais sejam protegidos por lei contra crimes de homofobia - um homossexual é morto por dia no Brasil e os registros de ocorrência de violência não letal não param de subir. É pouca coisa pra se tomar uma atitude específica e encarar isso como um problema crônico, né? Mudar a lei para punir 700 moleques sem rumo na vida também é. Creio que os grandes beneficiados com a diminuição da maioridade penal serão os pais e responsáveis por esses menores, que não poderão ser responsabilizados criminalmente pelas barbaridades que as suas crias cometerem, e, no final, quem mais é responsável pela formação de um bandidinho dentro de casa do que os que o criaram?

Tem uma dessas campanhas de Facebook que apelam para a histeria coletiva, divulgando dados falsos sobre a maioridade penal em países do primeiro mundo. Essas campanhas citam a idade mínima pela qual um menor pode sofrer sansões sócio-educativas por crimes cometidos como se fosse a idade da maioridade penal, ou seja, quando alguém pode ser julgado, condenado e punido como um adulto completo, e usam isso como argumento pétreo para justificar a redução da maioridade penal no Brasil. Acontece que o mesmo relatório, na página 15, expõe uma tabela com a idade mínima de responsabilidade penal juvenil e a maioridade penal em todos esses países, e outros mais, e exceto a Estônia, a Turquia e os Estados Unidos, o indivíduo só é totalmente responsável pelos seus crimes após os 18 anos (e em alguns países, dentre eles uns alardeados nessas campanhas de Facebook, somente aos 21). Igual aqui.

Por enquanto essa é uma discussão muito pobre, baseada em técnicas de desumanização do "alvo" e num sentimento de vingança, argumentos baseados em dados falsos (elaborados, creio eu, de má fé), e que, de maneira alguma, ataca o verdadeiro problema, que são os fatores que GERAM o menor infrator. Muita gente com tridentes e tochas na mão, e pouca gente se dando ao trabalho de pensar no problema, em causas e efeitos. Nós, inclundo VOCÊ, estamos gerando delinquentes e não estamos debatendo como fazer para que isso não aconteça - apenas em como varrer os corpos para longe das vistas.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Caminhando pelos vales da morte

É senso comum que nós nunca sonhamos com a nossa própria morte. Às vezes sonhamos que estamos mortalmente feridos, doentes, caindo de precipícios, mas no momento em que vamos morrer, acordamos.

Bom, eu sonhei com a minha morte.

O sonho começou quando eu estava morrendo. Estava sentado quando meu corpo parou. Por um momento eu senti como se tivesse 4 mãos e 4 pés - era o breve momento em que o corpo desfalecia e o espírito tomava consciência de si. Então eu era um espírito, tinha um corpo imaterial, etéreo, que parecia translúcido aos meus olhos, mas, à parte disso, nada diferente do meu corpo material, com roupas, mãos, essas coisas. Como um corpo imaterial (feito de "energia sutil", como eu já li em textos espiritualistas), eu não era mais capaz de interagir com o mundo material, então eu atravessava paredes, não podia tocar ou mover coisa alguma.

Junto comigo havia outro espírito, que me incentivava a fazer alguns procedimentos. Com ele eu aprendi a manipular pequenos objetos, então peguei um lápis e comecei a escrever num papel. Escrevia sobre quem eu era e a minha experiência pós morte. Mas em um dado momento, escrever começou a ficar difícil. Eu não conseguia escrever palavras inteiras, e ao mesmo tempo a caligrafia se deteriorava. Então percebi que o eu espiritual estava, na verdade, se desfazendo. Pois, assim como o corpo material retorna à terra de onde veio, o meu espírito, como energia, estava dissipando-se, diluindo-se, retornando ao universo de onde veio. E eu senti uma grande sensação de compleição... eu estava voltando para casa.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

O homem modesto

Não sou muito modesto. Mas a modéstia é algo que eu pretendo alcançar um dia. Já fui muito arrogante, e isso criou dificuldades desnecessárias para a minha vida, e tremendas frustrações que me desencorajaram a seguir determinados caminhos que eu um dia tracei para mim. Aprendi que dependemos das pessoas, por mais independentes que nós nos imaginemos. É uma característica de ser humano e estar inserido numa sociedade - cada pessoa é especializada em uma ou mais funções, e é incapaz de ser proficiente em todas, então ela sempre precisará de alguém para fazer por ela o que ela não é capaz de fazer sozinha, por mais misantrópica e pretenciosamente "unplugged" que seja.

A modéstia não é muito bem vista. É confundida com apatia, conformismo, pequenez, e uma pessoa modesta é vista como alguém que não tem sonhos nem ambições, que estagnou na vida, que não se importa em esforçar-se para sair do lugar. Mas ser acomodado não é ser modesto - é possível ser ambicioso, mas não ter a energia para perseguir suas ambições, e a sua aparente acomodação é, na verdade, a sua frustração. Há um vazio ali, uma dissonância distante de uma faceta potencialmente destrutiva do caráter de uma personalidade neutralizada por si mesma. Às vezes, o homem pode ser tolhido pelas circunstâncias da vida e não ter como sair de um estado fundamental de pobreza material e espiritual, embora, no fundo, deseje tudo do bom e do melhor. Nada disso é realmente modesto.

A modéstia não somente é mal vista, como também não é bem quista. Porque para ser um homem modesto, é preciso aceitar de bom grado todas as dificuldades que lhe são impostas, moldar-se a elas e transformar a sua realidade para viver bem. Isso demanda de um esforço muito maior do que o necessário para puxar o tapete de alguém para assumir uma posição melhor no trabalho ou acobertar suas mentiras com superficialidades para viver na luxúria com os privilégios de uma vida pessoal estável.

O homem modesto não chora sobre os escombros da sua casa, mas aceita que ela caiu, apura as responsabilidades, e trabalha para erguê-la novamente. O homem modesto se responsabiliza pelas decisões equivocadas que toma na vida sem arrependimentos, estuda os erros, e procura acertar na próxima. O homem modesto não tem vaidades, não se vangloria dos próprios feitos, porque ele faz aquilo que sempre deveria ter feito. O homem modesto compartilha da dor alheia, e não se refugia em esconderijos psicológicos para fingir que nada está acontecendo - fuga esta que resulta no comentário "ainda bem que não foi comigo". O homem modesto compartilha o que não é seu, e reconhece que muito pouco do que pode ser possuído não é realmente sua propriedade, inclusive o conhecimento. O homem modesto não exclui, porque sabe que o mais humilde ou o mai vil dos homens sempre tem algo a lhe ensinar que ele não conhece. O homem modesto não se mede pelo outro, mas pelo que ele pode fazer por si mesmo. O homem modesto reconhece a grandeza em cada pessoa, mesmo nas mais desprezíveis, porque sabe que todos partimos da mesma matriz e compartilhamos das mesmas falhas de caráter. O homem modesto estabelece metas, mas suprime os desejos, acima de tudo os desejos vãos e o prazer imediato, que podem desviá-los delas. O homem modesto se dedica abnegadamente a causas que considera justas e benéficas, porque lutas em próprio benefício, ao invés de exemplos positivos, podem causar dissenções e animosidades entre ele e seus próximos. O homem modesto agrega pelo exemplo, mas não reivindica a liderança se não for capaz de liderar. O homem modesto minimiza seu impacto no mundo, porque o pão que ele come a mais é o pão de quem está com fome. O homem modesto caminha com segurança sobre os seus direitos, mesmo quando os tiranos tentam subtraí-los. E mesmo que consigam, e que o desnudem e o violentem, o homem modesto sabe que a vingança - um desejo vão que satisfaz apenas no momento em que é aplicada - não elevará a sua dor, mas sim a justiça. E, se a justiça falhar, o homem que pratica a modéstia verdadeira será defendido por muitos.

O homem modesto desafia os valores aceitos pela sociedade. Longe de ser uma pessoa apática e manipulável, o homem verdadeiramente modesto é, acima de tudo, uma força transformadora.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Eleições 2012

Com a confirmação da eleição de Eduardo Paes, o Rio de Janeiro novamente escolhe o seu aliado de criminosos favorito. Contudo, eu me sinto feliz com o pleito, porque tomei uma posição contra o crime organizado, contra as milícias que achacam as comunidades carentes (meu bairro, inclusive), contra os usurpadores da coisa pública pelo poder econômico. Votei contra tudo que se coloca entre o cidadão e o pleno exercício dos seus direitos.

Alguém diria: "é isso aí, tem que votar contra as elites". Eu não voto contra as elites. As elites também são trabalhadoras, cariocas, e brasileiras, e, salvo exceções, obtiveram seu status legalmente (mesmo que a sua moralidade possa ser questionada, não é ilegal ser imoral). Eles são como eu e como os que pegam o mesmo ônibus que eu quando ele passa pela Rocinha, não posso me colocar contra eles. Não desejo tirar-lhes o que lhes é de direito. Ao contrário votei a favor deles também. E dos meus interesses como morador de uma comunidade com o sétimo pior IDH do município. Do contrário, estaria eu fazendo o papel de usurpador de direitos, transformando-me em tirano dos meus tiranos, e igualando-me aos que condeno.

Porque as elites sobrevivem cultivando seu status quo, é natural e histórico que isto ocorra, mesmo em sociedades pretensamente "igualitárias". Porém, enquanto as elites cultivarem o abismo social entre elas e a periferia, lutando para embarreirar obras e projetos que beneficiem as classes mais baixas e promovam a integração e a igualdade de direitos, haverá uma tensão social perigosa, porque ela pode ser estendida só até um limite. E quando ela arrebentar, choverá ferro e fogo sobre as mesmas elites. É contra isso que eu votei. É contra isso que eu voto sempre.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Come Tudo, Bebe Tudo, e Nada Chega

Minha avó me contava estórias para dormir. Não eram exatamente estórias de príncipes e princesas como se espera, mas funcionava, porque além de acalmar e fazer dormir, elas eram boas e divertidas o suficiente para querer ouvir de novo. Uma delas era uma obra prima, e ela a chamava de "Come Tudo, Bebe Tudo, E Nada Chega". Vou tentar registrá-la aqui da maneira como eu me lembro. Talvez minha avó leia isto via facebook, e se ela se lembrar de alguma coisa, pode me corrigir.

Tudo começava com um príncipe. Ele recebeu a notícia de que um rei daria sua filha em casamento a aquele que vencesse uma série de competições. Então o príncipe pôs-se a caminho. Logo ele encontrou um sujeito com grandes orelhas na beira da estrada, muito triste. "Por que está triste?" perguntou o príncipe. "Porque sou feio, tenho orelhas muito grandes". "Pois sou um príncipe, e..." "...e vai tentar se casar com a princesa", completou o outro. Acontecia que as orelhas grandes permitiam que ele ouvisse tudo, até o sussurro mais distante. Então o príncipe o convidou a ir com ele.

Depois, eles encontraram um sujeito com grandes pernas, que também estava triste, porque caçoavam das suas pernas. "Mas com um passo eu sou capaz de percorrer todo o reino", e o príncipe o convidou a ir com ele.

Em seguida, encontraram um caçador com uma espingarda, e estava triste porque caçoavam das grossas lentes do seu óculos. "Mas em compensação, sou capaz de atirar num rato a 2 quilômetros de distância". Impressionado, o príncipe o convidou a se juntar a ele.

A turma caminhou mais um pouco, e encontrou um sujeito gordo chorando na borda de um buraco. "Me chamo Come Tudo, Bebe Tudo, e Nada Chega. Estou triste porque eu sou capaz de comer uma plantação de batatas numa bocada, e ainda fico com fome, e sou capaz de beber a água de um lago com um gole, e continuo com sede". O príncipe prometeu que Come Tudo, Bebe Tudo, e Nada Chega poderia comer o que quisesse do seu próprio reino se o acompanhasse. E assim, os 5 seguiram para o torneio pela mão da princesa.

Na primeira competição, cada principe elegeria um campeão para uma prova de inteligência: o vencedor seria aquele que descobrisse em qual barril estava escondido um rato. Cada um tentou e errou, e o sujeito de grandes orelhas, ouvindo os mínimos ruídos do roedor, acertou na primeira tentativa, para espanto geral.

Na segunda competição, venceria quem completasse 10 voltas em torno do castelo a pé. Foi dada a partida, e enquanto cada campeão dava o máximo, o homem de longas pernas estava deitado, dormindo ao sol. Quando o vencedor parecia definido, faltando alguns metros, o homem se levantou, e, com um passo só, deu 10 voltas completas antes que todos.

Na terceira competição, venceria quem conseguisse acertar um coelho à maior distância. Caçadores habilidosos abatiam suas presas a 150, 200, 300 metros de distância. O caçador de óculos, então, esperou que o coelho corresse o máximo que pudesse, e, quando já estava a 10 quilômetros de distância, ele acertou um tiro que perfurou as duas orelhas, mas manteve o coelho vivo.

O rei já estava impressionado, mas ainda iria impor uma última prova para definir o noivo de sua filha: seria aquele que providenciasse o maior espetáculo de fogos de artifício. O príncipe então ficou desanimado, porque era pobre e não podia pagar pelos fogos. Então, Come Tudo, Bebe Tudo, e Nada Chega se aproximou e disse: "Deixe comigo, príncipe, pois esta noite faremos um espetáculo como nunca se viu". Então, o homenzarrão saiu e começou a comer e beber tudo que encontrou pela frente: hortas de verduras, plantações de cenouras, pomares de maçãs, comeu os animais do bosque, e até algumas árvores, bebeu toda a água dos rios com seus peixes.

Quando anoiteceu, os príncipes competidores estouravam seus fogos, cada um a sua vez. Por último, o nosso príncipe, ansioso, não sabia o que fazer e pensava em desistir, quando voltou Come Tudo, Bebe Tudo, e Nada Chega. A barriga do homem começou a fazer um estrondo surdo, e então ele arrotou e peidou tanto que nunca se ouviu tamanhas explosões, abalando muralhas e afugentando pessoas. E com esse espetáculo de flatulência, o príncipe venceu a competição e se casou com a princesa.

Aí minha avó contava que ela tinha sido convidada para o casamento, e que ela vinha trazendo uma bandeja de brigadeiros quando o ônibus freou e ela derrubou tudo.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Campanha eleitoral

Há 4 anos eu já escrevia neste blog (que, na verdade, é uma migração de um antigo blog do Weblogger, que iniciei em 2001) e eu já havia comentado sobre falcatruas nas eleições para prefeito do Rio (sendo até gentil com o nosso atual prefeito e líder nas pesquisas, aqui). Sustento minha opinião, e se alguém pedir fatos, dar-lhes-ei também :^P

terça-feira, 24 de julho de 2012

Prolegômenos de pensamentos incompletos

Eu tenho uma memória prodigiosa para leitura, e geralmente me lembro (pelo menos durante algum tempo) de quase tudo que eu leio. Mas eu tenho sérios problemas para lembrar das referências bibliográficas (o autor, o título da obra e o ano de publicação, e até onde diabos eu li aquilo). Eu venho matutando nos últimos dias sobre algo que eu li por aí, não lembro onde, não lembro quando, e não lembro de quem, então desculpaê :^P

Enfim, o ser humano passa por três etapas muito distintas no seu desenvolvimento intelectual:

-A infância, quando as novidades são assimiladas e misturadas com a imaginação, criando uma concepção do mundo pouco objetiva, com fantasias tão reais quanto os fenômenos factuais observados e interpretados nessa matriz de informações incompletas e mitos. Não obstante, é a fase em que a capacidade de aprendizado, talvez, seja mais a maior em toda a vida;

-A segunda se estende da adolescência até o início da fase adulta, quando o jovem descobre, como se ele fosse o primeiro, que certos mitos da infância são falsos, ou sempre foram verdadeiros, e apenas estavam encobertos pelo véu dos mitos. É uma fase de "revelações", em que a mente, deslumbrada pelas novas descobertas, leva a crer que as verdades absolutas estão aí para quem quiser vê-las. Quem nunca conheceu um adolescente que tivesse certeza das coisas (de longe a principal origem de conflitos entre adolescentes e adultos), atire a primeira pedra;

-A terceira é a fase da maturidade (que pode, sim, chegar em qualquer idade), quando a experiência e o conhecimento acumulados apresentam todas as contradições e a complexidade de cada aspecto da realidade, e que cada verdade ou dogma estabelecidos anteriormente precisam ser confrontados com uma série de novos dados que corroboram teses em contrário. É uma fase assustadora em que, de repente, a rocha sólida em que os pés estavam plantados se transforma em areia movediça, a certezas desaparecem, e, frequentemente, as pessoas se entregam a certas atividades com o intuito de isolar-se deste mundo confuso e assustador (desde entorpecer a mente até afundar-se nas verdades e crenças anteriores, que lhes eram familiares e lhes davam segurança).

Nenhuma conclusão por enquanto :^P

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Trollagem divina

Tem dias que você sai para trabalhar, e quando você desce do ônibus, começa a chover, e o seu guarda chuva quebra quando tenta abrir. Ou você passa o dia de bobeira na internet, e o seu chefe te liga às 20:00 para você enviar um arquivo de algo que precisa ser entregue na manhã seguinte, e é neste momento em que a internet cai e não volta mais.

Deus está trollando você, então não precisa se aborrecer.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Nomes científicos: um dia você rirá de um

Nomes científicos não são apenas uma forma de um cientista se afirmar no meio de leigos de forma arrogante. Eles são um mecanismo de comunicação mais eficiente do que uma pretensa língua universal. Porque, quando uma espécie é descrita, ela recebe um nome científico binomial (o nome do gênero a qual ela pertence, e o nome da espécie, como se fosse seu nome e sobrenome), e é por este nome que todos os cientistas do mundo, do Chile ao Japão, da Suécia à Nova Zelândia, em todas as línguas e alfabetos possíveis, reconhecerão que a Fulana fulanoides Monocromatico (em itálico, porque é assim que vc identifica um nome científico no meio do corpo de um texto, seguido do nome do autor da espécie, porque ocorre, acidentalmente, do mesmo nome ser proposto mais de uma vez) citada aqui é a mesma Fulana fulanoides Monocromatico encontrada aqui neste outro lugar. Porque nomes populares podem variar de lugar para lugar, não apenas de língua para língua, mas até mesmo de um bairro para outro da mesma cidade, frequentemente, inclusive, sendo utilizado para mais de uma espécie, e esse tipo de confusão é inadmissível para um trabalho científico, porque você precisa saber e dizer exatamente o que você está fazendo.

Os novos nomes são regulados por conselhos de especialistas, que determinam a validade dos nomes científicos de acordo com regras debatidas em congressos internacionais. Mas como os biólogos são geralmente meio malucões, embora eles geralmente façam tudo como os códigos internacionais de nomenclatura determinam, algumas vezes uma irreverência, ou a presença de espírito, ou mesmo coincidências infelizes que em português ficam engraçadas (graças ao latim e às latinizações usados nos nomes científicos), acabam sendo aceitas no meio científico. Então, aí vão 15 nomes científicos curiosos que eu escolhi por aí:

15: Godzillius robustus Schram, Yager, Emerson: uma espécie de crustáceo caribenho com não mais do que 4,5 cm de comprimento.

14: Clitoria fragrans Small: uma Fabaceae, cujo gênero se caracteriza por flores que lembram uma vagina, com os estames posicionados onde seria o clitóris. Aqui foi um caso de coincidir da flor se parecer com as partes pudentas de uma donzela, e ainda ser perfumada. O Dr. Small até tentou mover esta espécie para um outro gênero, mas Martiusia fragrans (Small) Small não tem o mesmo efeito :^P

13: Chaos chaos Linnaeus: uma ameba, aqui, comendo um paramécio. Linnaeus foi quem oficializou essa coisa de nomenclatura binomial, e como era ele quem fazia as regras, há muitas coisas bizarras com a assinatura dele (felizmente, muitas caíram em sinonímia).

12: Guitarra flamenca Carballo & Uriz: espécie de esponja marinha encontrada no Mediterrâneo. O gênero é uma alusão à forma de guitarra do animal, e a espécie, um trocadilho com a sua distribuição geográfica, junto à costa espanhola.

11: Leonardo davincii Bleszynski: é comum batizar espécies em homenagem a pessoas importantes, mesmo que não sejam da área. Mas o Bleszynski exagerou, e criou o gênero Leonardo (uma mariposa da família Pyralidae) só para usar o nome completo do artista para a espécie. Essa não foi a única que esse Bleszynski aprontou...

10: Viola abortiva Jord.: uma espécie de violeta que estupra e manda tirar...

9: Sterculea foetida L.: Uma árvore asiática conhecida no Brasil como chichá. O nome significa o que parece: fedor de esterco, devido ao aroma de podridão das suas flores.

8: Dezenas e dezenas de nomes homenageando os personagens de J.R.R. Tolkien: embora O Hobbit e O Senhor dos Anéis tenham sido publicados décadas antes, foi a geração hippie dos anos 70 que redescobriu e popularizou as histórias da Terra-média. E se hoje os biólogos são doidões, nos anos 70 então nem se fala. Nessa época foram descritas espécies e gêneros, como Mithrandir (um mamífero fóssil), Smeagol (um molusco da família Smeagolidae), Gollum (um tubarão) Balrogia (uma vespa) e Bubogonia bombadili (outro mamífero fóssil).

7: Abra cadabra Eames & Wilkins: O gênero Abra (um molusco bivalve) ia bem até Eames e Wilkins fazerem esse trocadilho. Hoje este nome é sinônimo de Theora mesopothamica Annandale, apenas por questões taxonômicas.

6: Vampiroteuthis infernalis Chun: um molusco cefalópode, cujo nome significa "lula vampira do inferno", mas que não passa de um animalzinho de, no máximo, 30cm de comprimento.

5: Vini vidivici Steadman & Zarriello: uma espécie de papagaio. "Vini, vidi, vici" são palavras de Júlio César, significando "Vim, vi, venci", descrevendo sua atuação na conquista da Gália. Uma espécie de epitáfio para este papagaio extinto há cerca de 1000 anos nas Ilhas Cook.

4: Tyrannasorus rex Ratcliffe & Ocampo: não é o que parece. Repare que o gênero é Tyrannasorus, não Tyranosaurus. Trata-se de um escaravelho fóssil com mania de grandeza.

3: Phallus impudicus L.: um cogumelo europeu, cujo nome científico significa "pinto sem-vergonha". Veja por si mesmo.

2: La cucaracha Bleszynski: Bleszynski de novo. Ele descreveu o gênero La de mariposas da família Pyralidae (a mesma da mariposa Leonardo davincii), e batizou a espécie típica como La cucaracha. Anos mais tarde, outro biólogo, B. Landry, entrou na onda e batizou uma espécie nova como La cerveza B. Landry.

1: Aha ha Menke: Quando Menke recebeu uma amostra desta vespa então desconhecida, ele teria gritado "AHA!". Mais tarde, ele conseguiu escrever Aha ha na placa do seu carro. Não por acaso, ele compilou uma lista de nomes científicos engraçados e disponibilizou na internet.

 
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