Cheguei ontem ao Leblon depois das 18:00. O ponto de encontro para a manifestação marcada com dias de antecedências pelas redes sociais era a esquina da Delfim Moreira (a rua da praia, para quem é de fora) e a Aristides Espínola (a rua onde mora o Sérgio Cabral). A Aristides estava bloqueada na esquina da Delfim Moreira e na General San Martin (a primeira paralela à praia). A Delfim Moreira estava bloqueada inicialmente pela CET-Rio no sentido Leblon da Rainha Guilhermina até a Niemeyer. Quando cheguei devia ter umas 400 pessoas ali, mas ao longo das horas chegou a ter provavelmente mil. A pista sentido Ipanema também acabou fechada, mas pelos manifestantes.
O plano inicial era fazer barulho ali na praia até o choque começar a dispersar a multidão. Levaram cartazes, instrumentos musicais, bandeiras, megafones. Havia computadores projetando manifestações em vídeo e PDF na parede dos prédios com 2 datashow. Estava tudo bem organizado. Eu via a movimentação da PM em volta, posicionando gente nas ruas vizinhas, carros passando pela Av. Niemeyer em direção ao Vidigal (aí eu soube que tinha uma turma na Rocinha que insistentemente fechava o túnel Zuzu Angel, e a PM tinha que intervir a todo momento para liberar a via). Alguns P2 foram identificados e expulsos da manifestação (eu achei que tinha identificado um, mas era só um segurança da Globo, que tinha uma equipe de reportagem descaracterizada ali no meio, misturadas a equipes de rádios, sites e canais da internet). Um grupo grande de manifestantes dava a volta no quarteirão para se posicionar na outra ponta do bloqueio, na San Martin, e dividir a atenção da PM.
Ao longo do tempo, uma espécie de inteligência coletiva amadureceu a ideia de deslocar a manifestação toda para a San Martin, mantendo apenas um contingente suficiente para manter a Delfim Moreira fechada. Com as duas vias fechadas, o congestionamento chegou até a Ponte Rio-Niterói (de onde vinham alguns camaradas, e que, por conta disso, demoraram umas 4 horas para chegar). Eu mesmo vinha para a pista toda vez que o guardinha da prefeitura tentava liberar o tráfego, e os poucos que permaneciam na Delfim conseguiam fazer os motoristas voltarem para tentar outro caminho. O objetivo dessa divisão era concentrar a pressão sobre o choque na San Martin, porque, quando eles abrissem fogo para dispersar a multidão, a guerra iria se espalhar para o meio do Leblon, e não se dissipar pela praia - gás lacrimogênio para os nobres cidadãos de bem em seus apartamentos no metro quadrado mais caro do mundo, uma ideia muito tentadora.
Por volta de 22:00, os black blocs (um pessoal bem organizado que vai para a linha de frente, pronto para bater e apanhar) saíram da praia e se dirigiram para a San Martin. Pouco depois o grupo da Delfim Moreira se dividiu, seguindo pelas duas ruas paralelas à Aristides Espínola. A tensão, nós víamos, na outra ponta do bloqueio já era muito grande, e se a coisa estourasse, éramos poucos, e seríamos alvos fáceis para o choque permanecendo na praia. Eu fui com a turma que seguiu pela Rainha Guilhermina.
Infelizmente eu não vi como tudo começou. Quando chegamos à esquina da Guilhermina com a San Martin, víamos e ouvíamos tudo: bombas de efeito moral, tiros de borracha, fumaça, barricadas em chamas. E isso vinha não só da esquina da Aristides, como também do outro lado - paralelamente, um grupo grande se manifestava na Bartolomeu Mitre, a algumas quadras dali. Eu ouvi, depois, que houve um incidente num prédio da Globo naquela rua, e foi o sinal para o choque abrir fogo simultaneamente lá e cá. Então, parados no cruzamento sem saber de onde viria o fogo, alguns começaram a usar tudo que podia ser inflamável ou tirado do lugar e para fazer barricadas na rua. Eu caminhava tranquilamente no meio disso tudo, exercitando a não-violência como nunca na minha vida. Enquanto o pessoal decidia o que fazer, eu caminhei na direção da Ataulfo de Paiva - a artéria central do Leblon - onde eu esperava traçar meu caminho até a Lagoa-Barra, por onde eu poderia ir para casa. Mas parece que meu caminhar incentivou o pessoal, e logo estavam todos lá (por isso parei num restaurante todo envidraçado e pedi ao maitre que estava na entrada para descer as portas de ferro).
A situação na Ataulfo era bastante tensa. É outra rua paralela à praia, também fazendo esquina com a Aristides e a Bartolomeu Mitre. A porrada estava comendo sem perdão na Aristides. Na intenção de levar o transtorno da guerra urbana para o Leblon e provocar a truculência da PM, alguns jogavam pedras em vidraças de lojas, quadros de publicidade, placas, sinais de trânsito, tudo que não fosse residencial e pudesse ser quebrado. Uma agência do Itaú foi completamente destruída (pelo que eu, pessoalmente, não senti qualquer remorso e até tive vontade de colaborar, porque atacar o banco é atacar o banqueiro... "não-violência, não-violência, estou caminhando com Gandhi...". Lamento pelos demais comerciantes que terão prejuízo). Não demorou muito para que outro pelotão do choque subisse a Rainha Guilhermina, assim como ainda outro pelotão que vinha subindo a Ataulfo por trás de nós. A gente sabe quando está na alça de mira das bombas do choque quando as luzes das ruas são apagadas (tanto para desorientar os manifestantes como para impedir as câmeras da prefeitura de registrarem os abusos). Quando as luzes se apagaram, a maioria rumou na direção da rua Dias Ferreira, o centro da boemia do bairro. Mas nisso também voavam pedras para todos os lados. Eu fiquei com medo das pedras (porque pedra não tem alvo), e procurei sair dali o mais rápido possível. Prefiro balas de borracha.
Nem lembro como cheguei na Dias Ferreira. O choque foi empurrando todas as frentes para lá, especificamente para a esquina da Pizzaria Guanabara, onde caímos numa armadilha. Luzes apagadas, alguém veio avisando que o BOPE estava vindo da Bartolomeu Mitre. O choque avançava pelas transversais, empurrando mais gente para o cruzamento. Ali foi o grande erro deles: a rua estava cheia, os bares com suas cadeiras nas calçadas lotadas de moradores locais, que aproveitavam para ver o jogo do Flamengo pela TV. Carros estavam estacionados na rua. Acuados, os manifestantes com mais "sangue nos zóio" destruíam tudo que podiam, jogando todo tipo de coisas na rua. A maior parte dos manifestantes estava acuada na calçada para tentar fugir do fogo cruzado (pedras contra balas de borracha). Então explodiram as bombas, a fumaça tomou conta, e quem ainda não tinha sido batizado com gás lacrimogênio, como eu, experimentou a sensação pela primeira vez ali. Inclusive o pessoal que só estava ali tomando uma cerveja, e os que estavam trabalhando, indistintamente. Nessa hora é que vale a pena ser vândalo, porque, já que a punição da polícia não distingue culpados de inocentes, pelo menos você não se fode à toa. Para minha sorte, encontrei uma máscara com filtro de carvão no trabalho, e embora os olhos ardessem, ainda consegui respirar.
Entrei numa rua qualquer, onde uns 10 PMs "normais" (sem o aparato do choque) fazia um cordão frouxo. Passei por eles de braços levantados, na hora que um deles deu o comando para avançar, e então me vi na Visconde de Albuquerque, fora da confusão, e com caminho livre para a Lagoa-Barra. Um amigo meu me telefonou na outra ponta da avenida oferecendo carona, então lá estava eu de novo na Ataulfo de Paiva, na cabeceira da rua. Tudo que não era residencial estava apedrejado, quebrado, queimado, e jogado na rua, impedindo os cruzamentos. Ataulfo faz esquina com a Dias Ferreira, e cerca de 15 metros adiante com a rua Rita Ludolf (onde o choque também botou gente pra correr), e os dois cruzamentos estavam impedidos. A maior parte dos manifestantes que ficaram para a guerra se reagrupou depois dessa segunda barricada, na altura da Aristides Espínola, esperando ou o choque chegar para o confronto, ou relaxar a segurança do quarteirão do Sérgio Cabral e permitir que todos voltassem para lá. Eu e meus amigos ficamos na primeira barricada, onde havia pouca gente. Patrulhas da PM criculavam na Visconde de Albuquerque (desses eu tenho medo, são esses que prendem, torturam, e somem com as pessoas... o choque, pelo menos, é previsível), ônibus com reforços iam em direção à praia, onde um grande pelotão se reunia. Um pequeno grupo do choque, armado apenas de escudos e cacetetes, subiu de maneira hesitante a Rita Ludolf. Eu vi na hora em que eles foram destacados de um grupo maior que estava correndo a San Martin em direção à Bartolomeu Mitre, num momento de desorganização. Se o pessoal que estava além da segunda barricada soubesse que havia um grupo pequeno de PMs basicamente desarmados, ia rolar uma carnificina ali. Foi quando eu fui embora.
Levar a guerra, que seria inevitável, para o meio do Leblon foi uma estratégia interessante, porque expõe aquela parte da cidade aos métodos da polícia que eles acham que está lá para protegê-los, mas que vai atirar bombas e gás lacrimogênio neles, nos seus filhos e nas suas propriedades indiscriminadamente. E que eles tem um governador, um vizinho, que é quem causa tudo isso e deixa acontecer. Porque fazer isso na Zona Oeste, na Rocinha, na favela, ninguém ligaria a mínima, porque "bem feito, na favela só tem bandido mesmo". Desde o começo da onda de manifestações, somos todos tratados como favela. A nobreza precisava sentir isso na pele - e nos olhos também.
PS: duas observações pertinentes, que eu só percebi quase indo embora:
Uma: a estratégia manjada do governo (com a colaboração da prefeitura, que é a responsável pela limpeza das ruas) de jogar a opinião pública contra as manifestações através de atos de vandalismo foi feita com caçambas de entulho espalhadas por todo o bairro. Na Rainha Guilhermina tinha uma, onde a galera se armou para quebrar tudo mais à frente. Na entrada da Niemeyer tinha outra, que não foi usada porque ninguém correu para lá. Eu passei por um tijolo de concreto largado numa calçada. Havia munição à vontade. Cortesia do Eduardo Paes.
Outra: Por volta de 11:45, quando eu estava na barricada da Ataulfo de Paiva com a Rita Ludolf, tudo ficou tranquilo. As pessoas conseguiram se reagrupar mais à frente porque o choque parou de atirar. O pequeno grupo do choque "desarmado" que eu vi subir a Rita Ludolf tinha sido destacado de um grupo maior e colocado ali para apanhar, porque eles não poderiam fazer nada para impedir o avanço da turba, nem dispersar ninguém só com escudos levantados e cara feia (de medo, na verdade). Nesse horário acabou o jogo de futebol, e um camarada que estava vendo TV pelo celular disse que a Globo estava entrando ao vivo, provavelmente também a Band... para cobrir a violência exclusiva dos "baderneiros" no nobre bairro do Leblon.
quinta-feira, 18 de julho de 2013
segunda-feira, 1 de julho de 2013
Quando o Estado se volta contra você
Quando a polícia desceu o pau na Avenida Paulista no dia 17, rebocando junto membros da grande imprensa que estavam cobrindo a notícia in loco, as manifestações ganharam a mídia e se multiplicaram pelo Brasil. De lá pra cá, duas semanas apenas, governos federais, estaduais e municipais se mexeram, executivo, legislativo e judiciário agilizaram projetos e processos, tudo para acalmar o furor nacional. Mas a revolta não terminou, porque quase nada do muito que precisa ser feito ainda está longe de ser feito. O que mudou é a maneira como ele está sendo administrado pelo poder público e divulgado pela mídia. As pessoas continuam saindo de suas casas e seus locais de trabalho para reivindicar serviços públicos compatíveis com a carga de impostos que eles pagam, pelas liberdades individuais, pela manutenção de uma estrutura minimamente democrática onde a repressão não exista, onde a justiça haja, onde as leis beneficiem o cidadão e não o cultive como uma casta inferior à dos "dotô". O povo continua gritando, mas menos pessoas estão ouvindo...
Pois bem, de amigos que estiveram lá ontem, dia 30/06 e outros relatos de testemunhas que participaram da passeata de ontem a noite perto do Maracanã - e até daquelas que tiveram a infelicidade de apenas estarem lá, morarem lá - tenho lido relatos que deixariam arrepiados os veteranos dos movimentos estudantis urbanos contra a repressão militar no regime que, nominalmente, já se foi. São os mesmos gritos de antes, aos milhares, vindos da direita e da esquerda, por justiça, por liberdade, por transparência, contra a concessão de obras públicas a administradores particulares - na prática, sua privatização. E são as mesmas táticas de guerra usadas pelo poder público para calá-los: quando as pessoas mostram que não tem medo e não vão sair dali, as balas de borracha são disparadas à altura do rosto, bombas de gás e efeito moral são disparadas (por canhões, morteiros, e helicóptero), espalhando a multidão para as ruas do entorno - onde mais policiais estão aguardando para disparar sobre os que estão tentando escapar. E, enquanto avançam para manobrar o povo em fuga para seus abatedouros, eles atiram em tudo e em todos que possam produzir provas do que eles estão fazendo - atiram com balas de chumbo em transformadores para impedir filmagens, enquanto câmeras da prefeitura são convenientemente desligadas ou desviadas para não registrarem as ações. Advogados da comissão de Direitos Humanos da OAB foram acossados mesmo depois de se apresentarem como tais, demonstrando não só o desprezo do Estado representado pela corporação pelo cidadão como pelas organizações civis. É a polícia servindo como a Guarda Pretoriana de um mini ditador que a usa como escudo contra o povo que está farto dos seus desmandos.
Hoje passei boa parte do dia repassando esses relatos que vinham chegando para a minha lista de amigos, porque elas nunca saberão de nada disso pela grande mídia. A Globo, no Jornal Hoje, fez com que a primeira passeata do dia parecesse um passeio de pais e filhos, e a segunda, um arrastão de "vândalos" e "baderneiros" (vocábulos nunca usados com tanta ênfase, e mesmo assim seletivamente, porque no Egito, por exemplo, são "manifestantes" que atacam prédios públicos e sedes de partidos políticos). Mostraram o "front" dos manifestantes, com mascarados prontos para o combate inevitável fazendo um cordão humano entre os demais protestantes e a polícia, prontos para levar o primeiro impacto quando fosse dada a ordem de abrir fogo. Em seguida mostrou-se um corre-corre, e uma preocupação com o policial que teve parte da farda queimada por uma bomba incendiária jogada contra a PM depois que ela abriu fogo. A TV mostrou exatamente este momento em que a polícia iniciou o confronto armado, mas mesmo assim o texto lido pelo âncora tentava me convencer do contrário (até por isso corri de volta para o facebook recolher os relatos de quem estava lá). Os feridos, os que tiveram bombas caindo em suas varandas, dentro de seus apartamentos, os que foram ameaçados com armas de fogo, foram violentados com gás de pimenta depois de rendidos, os espancamentos, as casas que foram invadidas sem mandato para caçar os fugitivos, nada disso foi noticiado, e nem será. Porque interessa à mídia acalmar o povo, porque ela própria é um dos alvos da sua fúria, assim como os políticos que garantem as suas concessões nacionais e regionais.
Outro dia eu escrevi, me referindo na ocasião à igualdade racial (era uma data significativa para a luta pela igualdade racial nos EUA), que é preciso combater essa monstruosidade, mesmo que isso nos torne foras da lei. É preciso também que lutemos pela nossa liberdade, pelo direito de nos colocarmos contra a classe dominante, que, desde há muito tempo não se via assim de uma forma tão literal. Acabamos de passar por uma chacina no Complexo da Maré, que teve como desculpa um arrastão na Av. Brasil e um policial morto. Disso resultou uma operação do BOPE com 10 mortes, 3 delas, praticamente 1/3, de vítimas inocentes. Na favela não tem bala de borracha. A cobertura disto também tem sido pobre, porque pobres eram os que morreram; para a mídia isto faz diferença. Mas estamos vendo que, para o Estado, somos todos pobres, somos todos empregados, somos todos subclasse, a menos que nos calemos e nos conformemos, fingimos que nada está acontecendo, porque senão os próximos seremos nós, seremos pegos pela única força do poder público que deveria proteger os nossos direitos fundamentais, que é a polícia. É a tática da intimidação que tem calado as favelas há décadas, fazendo-as parecer para o "asfalto" como comunidades satisfeitas com as suas valas negras, ruas sem luz, sem água, sem serviços públicos, sem cultura, sem direitos, sem rua, sem nada. E é a tática que eles querem empregar agora contra os que se levantam. Querem nos calar pelo medo. Como eu já disse, é preciso combater esta monstruosidade, mesmo que isto nos torne foras da lei. Porque, se você não se revolta, você se torna um deles.
Pois bem, de amigos que estiveram lá ontem, dia 30/06 e outros relatos de testemunhas que participaram da passeata de ontem a noite perto do Maracanã - e até daquelas que tiveram a infelicidade de apenas estarem lá, morarem lá - tenho lido relatos que deixariam arrepiados os veteranos dos movimentos estudantis urbanos contra a repressão militar no regime que, nominalmente, já se foi. São os mesmos gritos de antes, aos milhares, vindos da direita e da esquerda, por justiça, por liberdade, por transparência, contra a concessão de obras públicas a administradores particulares - na prática, sua privatização. E são as mesmas táticas de guerra usadas pelo poder público para calá-los: quando as pessoas mostram que não tem medo e não vão sair dali, as balas de borracha são disparadas à altura do rosto, bombas de gás e efeito moral são disparadas (por canhões, morteiros, e helicóptero), espalhando a multidão para as ruas do entorno - onde mais policiais estão aguardando para disparar sobre os que estão tentando escapar. E, enquanto avançam para manobrar o povo em fuga para seus abatedouros, eles atiram em tudo e em todos que possam produzir provas do que eles estão fazendo - atiram com balas de chumbo em transformadores para impedir filmagens, enquanto câmeras da prefeitura são convenientemente desligadas ou desviadas para não registrarem as ações. Advogados da comissão de Direitos Humanos da OAB foram acossados mesmo depois de se apresentarem como tais, demonstrando não só o desprezo do Estado representado pela corporação pelo cidadão como pelas organizações civis. É a polícia servindo como a Guarda Pretoriana de um mini ditador que a usa como escudo contra o povo que está farto dos seus desmandos.
Hoje passei boa parte do dia repassando esses relatos que vinham chegando para a minha lista de amigos, porque elas nunca saberão de nada disso pela grande mídia. A Globo, no Jornal Hoje, fez com que a primeira passeata do dia parecesse um passeio de pais e filhos, e a segunda, um arrastão de "vândalos" e "baderneiros" (vocábulos nunca usados com tanta ênfase, e mesmo assim seletivamente, porque no Egito, por exemplo, são "manifestantes" que atacam prédios públicos e sedes de partidos políticos). Mostraram o "front" dos manifestantes, com mascarados prontos para o combate inevitável fazendo um cordão humano entre os demais protestantes e a polícia, prontos para levar o primeiro impacto quando fosse dada a ordem de abrir fogo. Em seguida mostrou-se um corre-corre, e uma preocupação com o policial que teve parte da farda queimada por uma bomba incendiária jogada contra a PM depois que ela abriu fogo. A TV mostrou exatamente este momento em que a polícia iniciou o confronto armado, mas mesmo assim o texto lido pelo âncora tentava me convencer do contrário (até por isso corri de volta para o facebook recolher os relatos de quem estava lá). Os feridos, os que tiveram bombas caindo em suas varandas, dentro de seus apartamentos, os que foram ameaçados com armas de fogo, foram violentados com gás de pimenta depois de rendidos, os espancamentos, as casas que foram invadidas sem mandato para caçar os fugitivos, nada disso foi noticiado, e nem será. Porque interessa à mídia acalmar o povo, porque ela própria é um dos alvos da sua fúria, assim como os políticos que garantem as suas concessões nacionais e regionais.
Outro dia eu escrevi, me referindo na ocasião à igualdade racial (era uma data significativa para a luta pela igualdade racial nos EUA), que é preciso combater essa monstruosidade, mesmo que isso nos torne foras da lei. É preciso também que lutemos pela nossa liberdade, pelo direito de nos colocarmos contra a classe dominante, que, desde há muito tempo não se via assim de uma forma tão literal. Acabamos de passar por uma chacina no Complexo da Maré, que teve como desculpa um arrastão na Av. Brasil e um policial morto. Disso resultou uma operação do BOPE com 10 mortes, 3 delas, praticamente 1/3, de vítimas inocentes. Na favela não tem bala de borracha. A cobertura disto também tem sido pobre, porque pobres eram os que morreram; para a mídia isto faz diferença. Mas estamos vendo que, para o Estado, somos todos pobres, somos todos empregados, somos todos subclasse, a menos que nos calemos e nos conformemos, fingimos que nada está acontecendo, porque senão os próximos seremos nós, seremos pegos pela única força do poder público que deveria proteger os nossos direitos fundamentais, que é a polícia. É a tática da intimidação que tem calado as favelas há décadas, fazendo-as parecer para o "asfalto" como comunidades satisfeitas com as suas valas negras, ruas sem luz, sem água, sem serviços públicos, sem cultura, sem direitos, sem rua, sem nada. E é a tática que eles querem empregar agora contra os que se levantam. Querem nos calar pelo medo. Como eu já disse, é preciso combater esta monstruosidade, mesmo que isto nos torne foras da lei. Porque, se você não se revolta, você se torna um deles.
segunda-feira, 24 de junho de 2013
Eu protesto
Eu fico meio decepcionado comigo mesmo de ter participado da passeata colossal do dia 20/06 no Centro do Rio de Janeiro, ter visto o que eu vi, ter sentido o que eu senti, e ter lido o que eu NÃO vi, e todas as transformações do meu ponto de vista sobre o que está acontecendo no Brasil neste momento, e não ter escrito uma palavra a respeito, pela tremenda complexidade do assunto.
Em resumo: vamos às ruas, mas vamos com conhecimento do que queremos, e levar as reivindicações para quem pode atendê-las.
Em resumo: vamos às ruas, mas vamos com conhecimento do que queremos, e levar as reivindicações para quem pode atendê-las.
quarta-feira, 29 de maio de 2013
Morrer, mas não muito
Eu sou um anormal que não é afetado pela morte como a maioria das pessoas. Acredito na morte como parte natural da vida (pelo menos dos seres sexuados... a morte em organismos que se reproduzem por divisão celular ou cissiparidade, onde não há propriamente "envelhecimento", é um negócio estranho e alarmante :^P). E que a matéria, ao deixar de ser viva, retorna ao universo de onde veio... e se há um espírito (cuja existência ou não também não me afeta), feito de energia, terá o mesmo destino. É um destino glorioso para seres que são só "pó e sombra", como diziam os romanos, retornar ao universo, se diluir, integrar tudo. Não há porque ter medo. Não há porque lamentar.
Mas tem algo que a internet está fazendo que pode estar transformando a maneira como eu e todo mundo vemos a morte. Hoje qualquer um pode deixar a sua existência por escrito em redes sociais. E morrer logo depois, de câncer, de ataque cardíaco, suicídio, acidente de carro, que seja. Claro, isso sempre aconteceu. Ulisses D'Azevedo dos Andradas, um sujeito que eu acabei de inventar, escreveu uma carta ao seu irmão sobre seus planos de negócio, saiu na rua, e foi esfaqueado em 1889.
A diferença está na mídia. O papel envelhece. Uma carta ou um livro precisam ser resgatados de uma pilha ou uma prateleira, de uma caixa, porque surgiram tantas coisas depois deles... o papel sempre permanece no passado. A morte de alguém que registrou a sua vida há 10, 50, 100 anos está tão distante de nós quanto o tempo que se passou. Achava-se que a revolução aconteceria com o advento da fotografia, e depois do cinema, da TV. Mas a imagem em papel ou celulóide também envelhece.
Na internet a mídia nunca envelhece. Os sites estão sempre ativos, sempre disponíveis (desconsidere os servidores que saem do ar), sempre próximos e atuais. E, nas mídias sociais, a vida é registrada no tempo presente. Sempre que se lê algo na internet, o que nós entendemos instintivamente é que o que está sendo lido foi escrito agora, a despeito da data. Já tive respostas a posts antigos, com comentários inflamados ou congratulações, como se eu tivesse acabado de escrever aquilo, e na verdade eram ideias tão antigas e argumentos que eu já havia refutado por mim mesmo e abandonado, que eu nem soube como replicar. Para o leitor na internet, o que está escrito é sempre novo, é sempre agora.
E, novamente, com o advento das redes sociais, a massificação da internet e a transformação da rede numa espécie de quadro de recados onde cada conhecido deixa o seu (mas não necessariamente para você), a probabilidade de acontecer o improvável aumenta mais e mais. Quando ocorre a morte de um internauta, acontece algo extraordinário com a nossa mente: é como se o morto falasse, estivesse reclamando do Bolsa Família ou postando uma foto do seu último almoço. Tem a data da postagem ali no canto, mas o conteúdo está no presente, a mídia está no presente, e o leitor está no presente. Por isso, a morte de alguém online é algo muito, muito esquisito, porque ela continua existindo sem existir. O morto não fica mais para trás, ele é carregado pela dinâmica da vida pelos tempos afora.
Vou deixar a ideia pela metade por falta de tempo. Mas pense como o culto aos mortos mudaria substancialmente se os mortos não morressem totalmente.
Mas tem algo que a internet está fazendo que pode estar transformando a maneira como eu e todo mundo vemos a morte. Hoje qualquer um pode deixar a sua existência por escrito em redes sociais. E morrer logo depois, de câncer, de ataque cardíaco, suicídio, acidente de carro, que seja. Claro, isso sempre aconteceu. Ulisses D'Azevedo dos Andradas, um sujeito que eu acabei de inventar, escreveu uma carta ao seu irmão sobre seus planos de negócio, saiu na rua, e foi esfaqueado em 1889.
A diferença está na mídia. O papel envelhece. Uma carta ou um livro precisam ser resgatados de uma pilha ou uma prateleira, de uma caixa, porque surgiram tantas coisas depois deles... o papel sempre permanece no passado. A morte de alguém que registrou a sua vida há 10, 50, 100 anos está tão distante de nós quanto o tempo que se passou. Achava-se que a revolução aconteceria com o advento da fotografia, e depois do cinema, da TV. Mas a imagem em papel ou celulóide também envelhece.
Na internet a mídia nunca envelhece. Os sites estão sempre ativos, sempre disponíveis (desconsidere os servidores que saem do ar), sempre próximos e atuais. E, nas mídias sociais, a vida é registrada no tempo presente. Sempre que se lê algo na internet, o que nós entendemos instintivamente é que o que está sendo lido foi escrito agora, a despeito da data. Já tive respostas a posts antigos, com comentários inflamados ou congratulações, como se eu tivesse acabado de escrever aquilo, e na verdade eram ideias tão antigas e argumentos que eu já havia refutado por mim mesmo e abandonado, que eu nem soube como replicar. Para o leitor na internet, o que está escrito é sempre novo, é sempre agora.
E, novamente, com o advento das redes sociais, a massificação da internet e a transformação da rede numa espécie de quadro de recados onde cada conhecido deixa o seu (mas não necessariamente para você), a probabilidade de acontecer o improvável aumenta mais e mais. Quando ocorre a morte de um internauta, acontece algo extraordinário com a nossa mente: é como se o morto falasse, estivesse reclamando do Bolsa Família ou postando uma foto do seu último almoço. Tem a data da postagem ali no canto, mas o conteúdo está no presente, a mídia está no presente, e o leitor está no presente. Por isso, a morte de alguém online é algo muito, muito esquisito, porque ela continua existindo sem existir. O morto não fica mais para trás, ele é carregado pela dinâmica da vida pelos tempos afora.
Vou deixar a ideia pela metade por falta de tempo. Mas pense como o culto aos mortos mudaria substancialmente se os mortos não morressem totalmente.
quinta-feira, 25 de abril de 2013
Tem gente que debate, tem gente que só bate
Tenho um relatório da UNICEF, publicado em 2007, nas mãos. Nele eu vejo dados interessantes: do universo da população brasileira, a proporção de adolescentes de 12 a 17 anos (a faixa de idade em que o jovem infrator pode sofrer medidas sócio-educativas ou privados de liberdade na legislação atual) em conflito com a justiça (que tenham cometido crimes) é de 0,1583%. Desses infratores, apenas 1,4% cometeram assassinatos, sendo os demais delitos considerados leves, principalmente crimes contra o patrimônio (furto, roubo, depredações), ou relacionados ao tráfico de drogas. Fazendo uma matemática macarrônica, do universo de cerca de 30 milhões de brasileiros entre 12 e 17 anos (segundo o IBGE, em 2010), 0,0022162% dos jovens infratores cometem crimes contra a vida humana. Umas 700 pessoas.
O relatório ainda diz que, entre jovens internados em unidades onde são privados de liberdade, o índice de homicídios registrados por essa população sobe para 15% do total de crimes registrados.
Ao mesmo tempo, em 2002, a causa externa de óbito (ou seja, não causada por doenças) mais comum em menores brasileiros foi o homicídio, correspondendo a 40% das causas de morte externas.
Ou seja, somos um país que assassina seus jovens, fabrica criminosos profissionais com políticas carcerárias obsoletas, e ainda espuma pedindo que a maioridade penal seja rebaixada para 16 anos, o que vai abranger uma pequena porção dos 0,1583 jovens infratores do país, causando um impacto sensacional na segurança pública.
Eu, pessoalmente, duvido muito que bater mais forte do que já se bate vá fazer alguma diferença. Talvez dê, já que eu não entendo de nada disso, e parece ter surgido muitos especialistas no assunto ultimamente. O que eu acho mais interessante é que muitos dos que pedem o sangue dos jovens infratores são os mesmos que acham ridículo que homossexuais sejam protegidos por lei contra crimes de homofobia - um homossexual é morto por dia no Brasil e os registros de ocorrência de violência não letal não param de subir. É pouca coisa pra se tomar uma atitude específica e encarar isso como um problema crônico, né? Mudar a lei para punir 700 moleques sem rumo na vida também é. Creio que os grandes beneficiados com a diminuição da maioridade penal serão os pais e responsáveis por esses menores, que não poderão ser responsabilizados criminalmente pelas barbaridades que as suas crias cometerem, e, no final, quem mais é responsável pela formação de um bandidinho dentro de casa do que os que o criaram?
Tem uma dessas campanhas de Facebook que apelam para a histeria coletiva, divulgando dados falsos sobre a maioridade penal em países do primeiro mundo. Essas campanhas citam a idade mínima pela qual um menor pode sofrer sansões sócio-educativas por crimes cometidos como se fosse a idade da maioridade penal, ou seja, quando alguém pode ser julgado, condenado e punido como um adulto completo, e usam isso como argumento pétreo para justificar a redução da maioridade penal no Brasil. Acontece que o mesmo relatório, na página 15, expõe uma tabela com a idade mínima de responsabilidade penal juvenil e a maioridade penal em todos esses países, e outros mais, e exceto a Estônia, a Turquia e os Estados Unidos, o indivíduo só é totalmente responsável pelos seus crimes após os 18 anos (e em alguns países, dentre eles uns alardeados nessas campanhas de Facebook, somente aos 21). Igual aqui.
Por enquanto essa é uma discussão muito pobre, baseada em técnicas de desumanização do "alvo" e num sentimento de vingança, argumentos baseados em dados falsos (elaborados, creio eu, de má fé), e que, de maneira alguma, ataca o verdadeiro problema, que são os fatores que GERAM o menor infrator. Muita gente com tridentes e tochas na mão, e pouca gente se dando ao trabalho de pensar no problema, em causas e efeitos. Nós, inclundo VOCÊ, estamos gerando delinquentes e não estamos debatendo como fazer para que isso não aconteça - apenas em como varrer os corpos para longe das vistas.
O relatório ainda diz que, entre jovens internados em unidades onde são privados de liberdade, o índice de homicídios registrados por essa população sobe para 15% do total de crimes registrados.
Ao mesmo tempo, em 2002, a causa externa de óbito (ou seja, não causada por doenças) mais comum em menores brasileiros foi o homicídio, correspondendo a 40% das causas de morte externas.
Ou seja, somos um país que assassina seus jovens, fabrica criminosos profissionais com políticas carcerárias obsoletas, e ainda espuma pedindo que a maioridade penal seja rebaixada para 16 anos, o que vai abranger uma pequena porção dos 0,1583 jovens infratores do país, causando um impacto sensacional na segurança pública.
Eu, pessoalmente, duvido muito que bater mais forte do que já se bate vá fazer alguma diferença. Talvez dê, já que eu não entendo de nada disso, e parece ter surgido muitos especialistas no assunto ultimamente. O que eu acho mais interessante é que muitos dos que pedem o sangue dos jovens infratores são os mesmos que acham ridículo que homossexuais sejam protegidos por lei contra crimes de homofobia - um homossexual é morto por dia no Brasil e os registros de ocorrência de violência não letal não param de subir. É pouca coisa pra se tomar uma atitude específica e encarar isso como um problema crônico, né? Mudar a lei para punir 700 moleques sem rumo na vida também é. Creio que os grandes beneficiados com a diminuição da maioridade penal serão os pais e responsáveis por esses menores, que não poderão ser responsabilizados criminalmente pelas barbaridades que as suas crias cometerem, e, no final, quem mais é responsável pela formação de um bandidinho dentro de casa do que os que o criaram?
Tem uma dessas campanhas de Facebook que apelam para a histeria coletiva, divulgando dados falsos sobre a maioridade penal em países do primeiro mundo. Essas campanhas citam a idade mínima pela qual um menor pode sofrer sansões sócio-educativas por crimes cometidos como se fosse a idade da maioridade penal, ou seja, quando alguém pode ser julgado, condenado e punido como um adulto completo, e usam isso como argumento pétreo para justificar a redução da maioridade penal no Brasil. Acontece que o mesmo relatório, na página 15, expõe uma tabela com a idade mínima de responsabilidade penal juvenil e a maioridade penal em todos esses países, e outros mais, e exceto a Estônia, a Turquia e os Estados Unidos, o indivíduo só é totalmente responsável pelos seus crimes após os 18 anos (e em alguns países, dentre eles uns alardeados nessas campanhas de Facebook, somente aos 21). Igual aqui.
Por enquanto essa é uma discussão muito pobre, baseada em técnicas de desumanização do "alvo" e num sentimento de vingança, argumentos baseados em dados falsos (elaborados, creio eu, de má fé), e que, de maneira alguma, ataca o verdadeiro problema, que são os fatores que GERAM o menor infrator. Muita gente com tridentes e tochas na mão, e pouca gente se dando ao trabalho de pensar no problema, em causas e efeitos. Nós, inclundo VOCÊ, estamos gerando delinquentes e não estamos debatendo como fazer para que isso não aconteça - apenas em como varrer os corpos para longe das vistas.
quarta-feira, 17 de abril de 2013
Caminhando pelos vales da morte
É senso comum que nós nunca sonhamos com a nossa própria morte. Às vezes sonhamos que estamos mortalmente feridos, doentes, caindo de precipícios, mas no momento em que vamos morrer, acordamos.
Bom, eu sonhei com a minha morte.
O sonho começou quando eu estava morrendo. Estava sentado quando meu corpo parou. Por um momento eu senti como se tivesse 4 mãos e 4 pés - era o breve momento em que o corpo desfalecia e o espírito tomava consciência de si. Então eu era um espírito, tinha um corpo imaterial, etéreo, que parecia translúcido aos meus olhos, mas, à parte disso, nada diferente do meu corpo material, com roupas, mãos, essas coisas. Como um corpo imaterial (feito de "energia sutil", como eu já li em textos espiritualistas), eu não era mais capaz de interagir com o mundo material, então eu atravessava paredes, não podia tocar ou mover coisa alguma.
Junto comigo havia outro espírito, que me incentivava a fazer alguns procedimentos. Com ele eu aprendi a manipular pequenos objetos, então peguei um lápis e comecei a escrever num papel. Escrevia sobre quem eu era e a minha experiência pós morte. Mas em um dado momento, escrever começou a ficar difícil. Eu não conseguia escrever palavras inteiras, e ao mesmo tempo a caligrafia se deteriorava. Então percebi que o eu espiritual estava, na verdade, se desfazendo. Pois, assim como o corpo material retorna à terra de onde veio, o meu espírito, como energia, estava dissipando-se, diluindo-se, retornando ao universo de onde veio. E eu senti uma grande sensação de compleição... eu estava voltando para casa.
Bom, eu sonhei com a minha morte.
O sonho começou quando eu estava morrendo. Estava sentado quando meu corpo parou. Por um momento eu senti como se tivesse 4 mãos e 4 pés - era o breve momento em que o corpo desfalecia e o espírito tomava consciência de si. Então eu era um espírito, tinha um corpo imaterial, etéreo, que parecia translúcido aos meus olhos, mas, à parte disso, nada diferente do meu corpo material, com roupas, mãos, essas coisas. Como um corpo imaterial (feito de "energia sutil", como eu já li em textos espiritualistas), eu não era mais capaz de interagir com o mundo material, então eu atravessava paredes, não podia tocar ou mover coisa alguma.
Junto comigo havia outro espírito, que me incentivava a fazer alguns procedimentos. Com ele eu aprendi a manipular pequenos objetos, então peguei um lápis e comecei a escrever num papel. Escrevia sobre quem eu era e a minha experiência pós morte. Mas em um dado momento, escrever começou a ficar difícil. Eu não conseguia escrever palavras inteiras, e ao mesmo tempo a caligrafia se deteriorava. Então percebi que o eu espiritual estava, na verdade, se desfazendo. Pois, assim como o corpo material retorna à terra de onde veio, o meu espírito, como energia, estava dissipando-se, diluindo-se, retornando ao universo de onde veio. E eu senti uma grande sensação de compleição... eu estava voltando para casa.
quinta-feira, 11 de abril de 2013
O homem modesto
Não sou muito modesto. Mas a modéstia é algo que eu pretendo alcançar um dia. Já fui muito arrogante, e isso criou dificuldades desnecessárias para a minha vida, e tremendas frustrações que me desencorajaram a seguir determinados caminhos que eu um dia tracei para mim. Aprendi que dependemos das pessoas, por mais independentes que nós nos imaginemos. É uma característica de ser humano e estar inserido numa sociedade - cada pessoa é especializada em uma ou mais funções, e é incapaz de ser proficiente em todas, então ela sempre precisará de alguém para fazer por ela o que ela não é capaz de fazer sozinha, por mais misantrópica e pretenciosamente "unplugged" que seja.
A modéstia não é muito bem vista. É confundida com apatia, conformismo, pequenez, e uma pessoa modesta é vista como alguém que não tem sonhos nem ambições, que estagnou na vida, que não se importa em esforçar-se para sair do lugar. Mas ser acomodado não é ser modesto - é possível ser ambicioso, mas não ter a energia para perseguir suas ambições, e a sua aparente acomodação é, na verdade, a sua frustração. Há um vazio ali, uma dissonância distante de uma faceta potencialmente destrutiva do caráter de uma personalidade neutralizada por si mesma. Às vezes, o homem pode ser tolhido pelas circunstâncias da vida e não ter como sair de um estado fundamental de pobreza material e espiritual, embora, no fundo, deseje tudo do bom e do melhor. Nada disso é realmente modesto.
A modéstia não somente é mal vista, como também não é bem quista. Porque para ser um homem modesto, é preciso aceitar de bom grado todas as dificuldades que lhe são impostas, moldar-se a elas e transformar a sua realidade para viver bem. Isso demanda de um esforço muito maior do que o necessário para puxar o tapete de alguém para assumir uma posição melhor no trabalho ou acobertar suas mentiras com superficialidades para viver na luxúria com os privilégios de uma vida pessoal estável.
O homem modesto não chora sobre os escombros da sua casa, mas aceita que ela caiu, apura as responsabilidades, e trabalha para erguê-la novamente. O homem modesto se responsabiliza pelas decisões equivocadas que toma na vida sem arrependimentos, estuda os erros, e procura acertar na próxima. O homem modesto não tem vaidades, não se vangloria dos próprios feitos, porque ele faz aquilo que sempre deveria ter feito. O homem modesto compartilha da dor alheia, e não se refugia em esconderijos psicológicos para fingir que nada está acontecendo - fuga esta que resulta no comentário "ainda bem que não foi comigo". O homem modesto compartilha o que não é seu, e reconhece que muito pouco do que pode ser possuído não é realmente sua propriedade, inclusive o conhecimento. O homem modesto não exclui, porque sabe que o mais humilde ou o mai vil dos homens sempre tem algo a lhe ensinar que ele não conhece. O homem modesto não se mede pelo outro, mas pelo que ele pode fazer por si mesmo. O homem modesto reconhece a grandeza em cada pessoa, mesmo nas mais desprezíveis, porque sabe que todos partimos da mesma matriz e compartilhamos das mesmas falhas de caráter. O homem modesto estabelece metas, mas suprime os desejos, acima de tudo os desejos vãos e o prazer imediato, que podem desviá-los delas. O homem modesto se dedica abnegadamente a causas que considera justas e benéficas, porque lutas em próprio benefício, ao invés de exemplos positivos, podem causar dissenções e animosidades entre ele e seus próximos. O homem modesto agrega pelo exemplo, mas não reivindica a liderança se não for capaz de liderar. O homem modesto minimiza seu impacto no mundo, porque o pão que ele come a mais é o pão de quem está com fome. O homem modesto caminha com segurança sobre os seus direitos, mesmo quando os tiranos tentam subtraí-los. E mesmo que consigam, e que o desnudem e o violentem, o homem modesto sabe que a vingança - um desejo vão que satisfaz apenas no momento em que é aplicada - não elevará a sua dor, mas sim a justiça. E, se a justiça falhar, o homem que pratica a modéstia verdadeira será defendido por muitos.
O homem modesto desafia os valores aceitos pela sociedade. Longe de ser uma pessoa apática e manipulável, o homem verdadeiramente modesto é, acima de tudo, uma força transformadora.
A modéstia não é muito bem vista. É confundida com apatia, conformismo, pequenez, e uma pessoa modesta é vista como alguém que não tem sonhos nem ambições, que estagnou na vida, que não se importa em esforçar-se para sair do lugar. Mas ser acomodado não é ser modesto - é possível ser ambicioso, mas não ter a energia para perseguir suas ambições, e a sua aparente acomodação é, na verdade, a sua frustração. Há um vazio ali, uma dissonância distante de uma faceta potencialmente destrutiva do caráter de uma personalidade neutralizada por si mesma. Às vezes, o homem pode ser tolhido pelas circunstâncias da vida e não ter como sair de um estado fundamental de pobreza material e espiritual, embora, no fundo, deseje tudo do bom e do melhor. Nada disso é realmente modesto.
A modéstia não somente é mal vista, como também não é bem quista. Porque para ser um homem modesto, é preciso aceitar de bom grado todas as dificuldades que lhe são impostas, moldar-se a elas e transformar a sua realidade para viver bem. Isso demanda de um esforço muito maior do que o necessário para puxar o tapete de alguém para assumir uma posição melhor no trabalho ou acobertar suas mentiras com superficialidades para viver na luxúria com os privilégios de uma vida pessoal estável.
O homem modesto não chora sobre os escombros da sua casa, mas aceita que ela caiu, apura as responsabilidades, e trabalha para erguê-la novamente. O homem modesto se responsabiliza pelas decisões equivocadas que toma na vida sem arrependimentos, estuda os erros, e procura acertar na próxima. O homem modesto não tem vaidades, não se vangloria dos próprios feitos, porque ele faz aquilo que sempre deveria ter feito. O homem modesto compartilha da dor alheia, e não se refugia em esconderijos psicológicos para fingir que nada está acontecendo - fuga esta que resulta no comentário "ainda bem que não foi comigo". O homem modesto compartilha o que não é seu, e reconhece que muito pouco do que pode ser possuído não é realmente sua propriedade, inclusive o conhecimento. O homem modesto não exclui, porque sabe que o mais humilde ou o mai vil dos homens sempre tem algo a lhe ensinar que ele não conhece. O homem modesto não se mede pelo outro, mas pelo que ele pode fazer por si mesmo. O homem modesto reconhece a grandeza em cada pessoa, mesmo nas mais desprezíveis, porque sabe que todos partimos da mesma matriz e compartilhamos das mesmas falhas de caráter. O homem modesto estabelece metas, mas suprime os desejos, acima de tudo os desejos vãos e o prazer imediato, que podem desviá-los delas. O homem modesto se dedica abnegadamente a causas que considera justas e benéficas, porque lutas em próprio benefício, ao invés de exemplos positivos, podem causar dissenções e animosidades entre ele e seus próximos. O homem modesto agrega pelo exemplo, mas não reivindica a liderança se não for capaz de liderar. O homem modesto minimiza seu impacto no mundo, porque o pão que ele come a mais é o pão de quem está com fome. O homem modesto caminha com segurança sobre os seus direitos, mesmo quando os tiranos tentam subtraí-los. E mesmo que consigam, e que o desnudem e o violentem, o homem modesto sabe que a vingança - um desejo vão que satisfaz apenas no momento em que é aplicada - não elevará a sua dor, mas sim a justiça. E, se a justiça falhar, o homem que pratica a modéstia verdadeira será defendido por muitos.
O homem modesto desafia os valores aceitos pela sociedade. Longe de ser uma pessoa apática e manipulável, o homem verdadeiramente modesto é, acima de tudo, uma força transformadora.
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
Eleições 2012
Com a confirmação da eleição de Eduardo Paes, o Rio de Janeiro novamente escolhe o seu aliado de criminosos favorito. Contudo, eu me sinto feliz com o pleito, porque tomei uma posição contra o crime organizado, contra as milícias que achacam as comunidades carentes (meu bairro, inclusive), contra os usurpadores da coisa pública pelo poder econômico. Votei contra tudo que se coloca entre o cidadão e o pleno exercício dos seus direitos.
Alguém diria: "é isso aí, tem que votar contra as elites". Eu não voto contra as elites. As elites também são trabalhadoras, cariocas, e brasileiras, e, salvo exceções, obtiveram seu status legalmente (mesmo que a sua moralidade possa ser questionada, não é ilegal ser imoral). Eles são como eu e como os que pegam o mesmo ônibus que eu quando ele passa pela Rocinha, não posso me colocar contra eles. Não desejo tirar-lhes o que lhes é de direito. Ao contrário votei a favor deles também. E dos meus interesses como morador de uma comunidade com o sétimo pior IDH do município. Do contrário, estaria eu fazendo o papel de usurpador de direitos, transformando-me em tirano dos meus tiranos, e igualando-me aos que condeno.
Porque as elites sobrevivem cultivando seu status quo, é natural e histórico que isto ocorra, mesmo em sociedades pretensamente "igualitárias". Porém, enquanto as elites cultivarem o abismo social entre elas e a periferia, lutando para embarreirar obras e projetos que beneficiem as classes mais baixas e promovam a integração e a igualdade de direitos, haverá uma tensão social perigosa, porque ela pode ser estendida só até um limite. E quando ela arrebentar, choverá ferro e fogo sobre as mesmas elites. É contra isso que eu votei. É contra isso que eu voto sempre.
Alguém diria: "é isso aí, tem que votar contra as elites". Eu não voto contra as elites. As elites também são trabalhadoras, cariocas, e brasileiras, e, salvo exceções, obtiveram seu status legalmente (mesmo que a sua moralidade possa ser questionada, não é ilegal ser imoral). Eles são como eu e como os que pegam o mesmo ônibus que eu quando ele passa pela Rocinha, não posso me colocar contra eles. Não desejo tirar-lhes o que lhes é de direito. Ao contrário votei a favor deles também. E dos meus interesses como morador de uma comunidade com o sétimo pior IDH do município. Do contrário, estaria eu fazendo o papel de usurpador de direitos, transformando-me em tirano dos meus tiranos, e igualando-me aos que condeno.
Porque as elites sobrevivem cultivando seu status quo, é natural e histórico que isto ocorra, mesmo em sociedades pretensamente "igualitárias". Porém, enquanto as elites cultivarem o abismo social entre elas e a periferia, lutando para embarreirar obras e projetos que beneficiem as classes mais baixas e promovam a integração e a igualdade de direitos, haverá uma tensão social perigosa, porque ela pode ser estendida só até um limite. E quando ela arrebentar, choverá ferro e fogo sobre as mesmas elites. É contra isso que eu votei. É contra isso que eu voto sempre.
terça-feira, 25 de setembro de 2012
Come Tudo, Bebe Tudo, e Nada Chega
Minha avó me contava estórias para dormir. Não eram exatamente estórias de príncipes e princesas como se espera, mas funcionava, porque além de acalmar e fazer dormir, elas eram boas e divertidas o suficiente para querer ouvir de novo. Uma delas era uma obra prima, e ela a chamava de "Come Tudo, Bebe Tudo, E Nada Chega". Vou tentar registrá-la aqui da maneira como eu me lembro. Talvez minha avó leia isto via facebook, e se ela se lembrar de alguma coisa, pode me corrigir.
Tudo começava com um príncipe. Ele recebeu a notícia de que um rei daria sua filha em casamento a aquele que vencesse uma série de competições. Então o príncipe pôs-se a caminho. Logo ele encontrou um sujeito com grandes orelhas na beira da estrada, muito triste. "Por que está triste?" perguntou o príncipe. "Porque sou feio, tenho orelhas muito grandes". "Pois sou um príncipe, e..." "...e vai tentar se casar com a princesa", completou o outro. Acontecia que as orelhas grandes permitiam que ele ouvisse tudo, até o sussurro mais distante. Então o príncipe o convidou a ir com ele.
Depois, eles encontraram um sujeito com grandes pernas, que também estava triste, porque caçoavam das suas pernas. "Mas com um passo eu sou capaz de percorrer todo o reino", e o príncipe o convidou a ir com ele.
Em seguida, encontraram um caçador com uma espingarda, e estava triste porque caçoavam das grossas lentes do seu óculos. "Mas em compensação, sou capaz de atirar num rato a 2 quilômetros de distância". Impressionado, o príncipe o convidou a se juntar a ele.
A turma caminhou mais um pouco, e encontrou um sujeito gordo chorando na borda de um buraco. "Me chamo Come Tudo, Bebe Tudo, e Nada Chega. Estou triste porque eu sou capaz de comer uma plantação de batatas numa bocada, e ainda fico com fome, e sou capaz de beber a água de um lago com um gole, e continuo com sede". O príncipe prometeu que Come Tudo, Bebe Tudo, e Nada Chega poderia comer o que quisesse do seu próprio reino se o acompanhasse. E assim, os 5 seguiram para o torneio pela mão da princesa.
Na primeira competição, cada principe elegeria um campeão para uma prova de inteligência: o vencedor seria aquele que descobrisse em qual barril estava escondido um rato. Cada um tentou e errou, e o sujeito de grandes orelhas, ouvindo os mínimos ruídos do roedor, acertou na primeira tentativa, para espanto geral.
Na segunda competição, venceria quem completasse 10 voltas em torno do castelo a pé. Foi dada a partida, e enquanto cada campeão dava o máximo, o homem de longas pernas estava deitado, dormindo ao sol. Quando o vencedor parecia definido, faltando alguns metros, o homem se levantou, e, com um passo só, deu 10 voltas completas antes que todos.
Na terceira competição, venceria quem conseguisse acertar um coelho à maior distância. Caçadores habilidosos abatiam suas presas a 150, 200, 300 metros de distância. O caçador de óculos, então, esperou que o coelho corresse o máximo que pudesse, e, quando já estava a 10 quilômetros de distância, ele acertou um tiro que perfurou as duas orelhas, mas manteve o coelho vivo.
O rei já estava impressionado, mas ainda iria impor uma última prova para definir o noivo de sua filha: seria aquele que providenciasse o maior espetáculo de fogos de artifício. O príncipe então ficou desanimado, porque era pobre e não podia pagar pelos fogos. Então, Come Tudo, Bebe Tudo, e Nada Chega se aproximou e disse: "Deixe comigo, príncipe, pois esta noite faremos um espetáculo como nunca se viu". Então, o homenzarrão saiu e começou a comer e beber tudo que encontrou pela frente: hortas de verduras, plantações de cenouras, pomares de maçãs, comeu os animais do bosque, e até algumas árvores, bebeu toda a água dos rios com seus peixes.
Quando anoiteceu, os príncipes competidores estouravam seus fogos, cada um a sua vez. Por último, o nosso príncipe, ansioso, não sabia o que fazer e pensava em desistir, quando voltou Come Tudo, Bebe Tudo, e Nada Chega. A barriga do homem começou a fazer um estrondo surdo, e então ele arrotou e peidou tanto que nunca se ouviu tamanhas explosões, abalando muralhas e afugentando pessoas. E com esse espetáculo de flatulência, o príncipe venceu a competição e se casou com a princesa.
Aí minha avó contava que ela tinha sido convidada para o casamento, e que ela vinha trazendo uma bandeja de brigadeiros quando o ônibus freou e ela derrubou tudo.
Tudo começava com um príncipe. Ele recebeu a notícia de que um rei daria sua filha em casamento a aquele que vencesse uma série de competições. Então o príncipe pôs-se a caminho. Logo ele encontrou um sujeito com grandes orelhas na beira da estrada, muito triste. "Por que está triste?" perguntou o príncipe. "Porque sou feio, tenho orelhas muito grandes". "Pois sou um príncipe, e..." "...e vai tentar se casar com a princesa", completou o outro. Acontecia que as orelhas grandes permitiam que ele ouvisse tudo, até o sussurro mais distante. Então o príncipe o convidou a ir com ele.
Depois, eles encontraram um sujeito com grandes pernas, que também estava triste, porque caçoavam das suas pernas. "Mas com um passo eu sou capaz de percorrer todo o reino", e o príncipe o convidou a ir com ele.
Em seguida, encontraram um caçador com uma espingarda, e estava triste porque caçoavam das grossas lentes do seu óculos. "Mas em compensação, sou capaz de atirar num rato a 2 quilômetros de distância". Impressionado, o príncipe o convidou a se juntar a ele.
A turma caminhou mais um pouco, e encontrou um sujeito gordo chorando na borda de um buraco. "Me chamo Come Tudo, Bebe Tudo, e Nada Chega. Estou triste porque eu sou capaz de comer uma plantação de batatas numa bocada, e ainda fico com fome, e sou capaz de beber a água de um lago com um gole, e continuo com sede". O príncipe prometeu que Come Tudo, Bebe Tudo, e Nada Chega poderia comer o que quisesse do seu próprio reino se o acompanhasse. E assim, os 5 seguiram para o torneio pela mão da princesa.
Na primeira competição, cada principe elegeria um campeão para uma prova de inteligência: o vencedor seria aquele que descobrisse em qual barril estava escondido um rato. Cada um tentou e errou, e o sujeito de grandes orelhas, ouvindo os mínimos ruídos do roedor, acertou na primeira tentativa, para espanto geral.
Na segunda competição, venceria quem completasse 10 voltas em torno do castelo a pé. Foi dada a partida, e enquanto cada campeão dava o máximo, o homem de longas pernas estava deitado, dormindo ao sol. Quando o vencedor parecia definido, faltando alguns metros, o homem se levantou, e, com um passo só, deu 10 voltas completas antes que todos.
Na terceira competição, venceria quem conseguisse acertar um coelho à maior distância. Caçadores habilidosos abatiam suas presas a 150, 200, 300 metros de distância. O caçador de óculos, então, esperou que o coelho corresse o máximo que pudesse, e, quando já estava a 10 quilômetros de distância, ele acertou um tiro que perfurou as duas orelhas, mas manteve o coelho vivo.
O rei já estava impressionado, mas ainda iria impor uma última prova para definir o noivo de sua filha: seria aquele que providenciasse o maior espetáculo de fogos de artifício. O príncipe então ficou desanimado, porque era pobre e não podia pagar pelos fogos. Então, Come Tudo, Bebe Tudo, e Nada Chega se aproximou e disse: "Deixe comigo, príncipe, pois esta noite faremos um espetáculo como nunca se viu". Então, o homenzarrão saiu e começou a comer e beber tudo que encontrou pela frente: hortas de verduras, plantações de cenouras, pomares de maçãs, comeu os animais do bosque, e até algumas árvores, bebeu toda a água dos rios com seus peixes.
Quando anoiteceu, os príncipes competidores estouravam seus fogos, cada um a sua vez. Por último, o nosso príncipe, ansioso, não sabia o que fazer e pensava em desistir, quando voltou Come Tudo, Bebe Tudo, e Nada Chega. A barriga do homem começou a fazer um estrondo surdo, e então ele arrotou e peidou tanto que nunca se ouviu tamanhas explosões, abalando muralhas e afugentando pessoas. E com esse espetáculo de flatulência, o príncipe venceu a competição e se casou com a princesa.
Aí minha avó contava que ela tinha sido convidada para o casamento, e que ela vinha trazendo uma bandeja de brigadeiros quando o ônibus freou e ela derrubou tudo.
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
Campanha eleitoral
Há 4 anos eu já escrevia neste blog (que, na verdade, é uma migração de um antigo blog do Weblogger, que iniciei em 2001) e eu já havia comentado sobre falcatruas nas eleições para prefeito do Rio (sendo até gentil com o nosso atual prefeito e líder nas pesquisas, aqui). Sustento minha opinião, e se alguém pedir fatos, dar-lhes-ei também :^P
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