quarta-feira, 26 de março de 2014

Purple Day - o dia internacional de consciência da epilepsia

Hoje foi um dia aborrecido. Eu me mudei (matéria para futuro post, "como é viver onde as outras pessoas normais vivem"), vim para a civilização, mas aparentemente o apartamento tem alguns problemas estruturais que eu tenho que resolver, e isso me toma tempo, e me obriga a escolher entre resolvê-los e trabalhar. Por isso, não resolvê-los é muito frustrante.

Aí me deparei com um post de um contato meu do Faceburguer nos EUA, divulgando o Purple Day, celebrado todo dia 26 de março para difundir o conhecimento sobre a epilepsia. Como eu nunca usei meu blog - nem o presente, nem os passados - para falar sobre isso, achei que seria adequado, e uma forma de fazer a minha parte neste dia, falar sobre epilepsia.

-Epilepsia-

Epilepsia é o nome para um amplo espectro de doenças, que se caracterizam por convulsões frequentes. Uma convulsão isolada não caracteriza epilepsia - um trauma na cabeça pode desencadear uma convulsão. As próprias convulsões, dependendo da parte afetada do cérebro, podem se apresentar de maneiras distintas de acordo com a síndrome apresentada por cada paciente, mas são geralmente movimentos involuntários de uma parte ou todo o corpo, podendo haver perda de consciência, mas pode se manifestar como ausências (episódios em que o paciente parece "desligar" por alguns segundos e deixa de responder a estímulos) ou distúrbios sensoriais (na forma de alucinações visuais, auditivas ou olfativas). A epilepsia e as doenças associadas não são contagiosas, então o paciente não precisa ser isolado durante o tratamento. Tampouco a epilepsia é sinal de loucura, intervenção divina ou demoníaca (motivo pelo qual epilépticos tiveram vida dura até fins do século XX). São doenças que tem tratamento se diagnosticadas corretamente por um neurologista.

-Meu caso-

Eu sou epiléptico. Comecei a ter convulsões localizadas na face seguidas de paralisia facial e lingual depois dos 5 anos de idade. A causa era uma inflamação no lado esquerdo do cérebro de origem genética, possivelmente caracterizando a Epilepsia Rolândica, ou Epilepsia Benigna com Pontas Centro-Temporais, pois é como ela se apresenta nos encefalogramas.

O meu tipo de epilepsia é o mais comum, e atinge crianças entre 5 e 15 anos, um pouco mais, um pouco menos. Depois de um tempo, ela deixa de se manifestar naturalmente. Mas como ela está impressa no código genético, pode ser transmitida para a geração seguinte. Os casos são muito numerosos e os sintomas variam bastante. No meu caso, incluía, nessa ordem:

-Alterações sensoriais, como zumbido no ouvido e desorientação;
-Perda de controle dos músculos faciais e da fala;
-Forte contração dos músculos faciais (a boca abria como num longo bocejo, mas com espasmos locais);
-Hipersalivação;
-Dificuldade de controle da respiração;
-Perda do controle motor mais fino nas mãos;
-A crise durava talvez cerca de um minuto. Durante a recuperação, os sentidos voltam ao normal rapidamente. É possível andar e gesticular normalmente imediatamente;
-A recuperação dos movimentos da face, da língua, e a capacidade de articular a fala demorava alguns minutos, talvez meia hora;
-As crises aconteciam geralmente à tarde ou à noite (como eu estudava de manhã, apenas uma ou duas vezes tive crises na escola);
-Eu ficava consciente durante todo o processo. É provável que acontecesse durante o sono. É impossível dizer, porque se acontecesse no meio da noite eu acordaria de manhã sem sequelas.

Nos eletroencefalogramas, eu apresentava regiões com picos muito densos ocorrendo de maneira irregular. Uma vez tive uma convulsão enquanto esperava para entrar na sala do exame, o que deve ter tornado o diagnóstico bem claro daquela vez :P

Este tipo de epilepsia é benigno, ou seja, não causa sequelas nem comorbidades, e normalmente não está associada a outras patologias. Os pacientes tem um desenvolvimento motor e mental sem diferenças notáveis para pessoas sem essa condição. Eu mesmo consegui manter um bom nível de aprendizado na escola, pratiquei esportes, joguei muito video game (mais do que pratiquei esportes) e levei uma infância relativamente normal. Mas para controlar as convulsões e manter o paciente confortável numa fase tão delicada da vida, é preciso o uso de medicamentos anticonvulsivos. No meu tempo de criança, os médicos ainda cogitavam a lobotomia como forma de "curar" a doença, e os remédios que eu tomava me deixavam aéreo e sonolento. O remédio ao qual me adaptei melhor se chamava Epelim, uma cápsula vermelha e branca tomada duas vezes ao dia. O conhecimento das diferentes epilepsias aumentou muito. Sabe aquela coisa que as avós dizem, que "antes ninguém tinha doença, hoje todo mundo tem alguma coisa"? Isso ajuda no diagnóstico e tratamento mais adequado para cada caso. O acompanhamento psicológico também é fundamental, porque a depressão bate à porta o tempo inteiro (olhando retrospectivamente, eu associo minhas dificuldades de relacionamento interpessoal ao meu medo de alguém me ver ou descobrir que era epiléptico, mas de tudo que eu lembro, a única lembrança que eu não tenho é justamente como eu processava emocionalmente a minha condição).

Quando cheguei aos 13 anos, as crises já não ocorriam fazia meses, mesmo eu deixando de tomar remédio um dia ou outro, e os exames apareciam normais. Fui à neuropediatra que me acompanhou desde o início apresentar os últimos resultados, e ela me disse que eu tinha 70% de chances de nunca mais ter uma convulsão, desde que eu cuidasse da minha saúde e tomasse algumas precauções - evitar bebidas e drogas principalmente - e disse que, se eu concordasse, ela poderia me dar alta. Lembro que naquele dia específico minha mãe não pôde me acompanhar, então foi a primeira decisão importante que eu tomei por conta própria. E dali em diante, isso deixou de ser uma preocupação para mim.

A Epilepsia Rolândica é a forma mais comum e mais branda de epilepsia. Há outros tipos, com diversas origens - genéticas, lesões no cérebro, doenças infecciosas, problemas metabólicos, traumas, tumores, má formação do encéfalo - com sintomas e efeitos diversos, como espasmos no corpo inteiro ou específicos em determinadas regiões, ausências, distúrbios sensoriais, com prognósticos que variam desde uma vida normal e saudável até sérias limitações cognitivas e motoras, e morte.

-Síndrome de West-

Eu gostaria também de falar sobre um outro caso diferente do meu, por causa da sutileza com que ele pode se apresentar, e do extremo cuidado que se deve ter para identifica-lo o mais cedo possível e iniciar tão logo o tratamento para atenuar suas sequelas.

Meu sobrinho, aos 3 meses, começou a sofrer episódios de contração súbita dos braços e pernas. Como um bebê, ele ficava deitado de braços e pernas abertas, e de repente os levava para frente, como se tentasse um abraço. Às vezes pode ser vista contração dos músculos do tórax e abdômem, revirar de olhos, e movimentos para trás com a cabeça. O bebê não chora e não produz som durante ou depois da crise, e tudo dura poucos segundos. É algo difícil de se identificar para quem não estiver muito atento. Esses movimentos são involuntários e pode ocorrer várias vezes ao dia. São os chamados Espasmos Infantis, o tipo de convulsão característica da Síndrome de West.

A Síndrome de West é uma comorbidade associada a outras doenças ou má formações neurológicas. É rara, e mais ou menos 90% dos pacientes apresentam graves lesões cerebrais pré-natais ou desenvolvidas por predisposição genética nos primeiros meses de vida, como a formação de tumores, microencefalia, atrofia cerebral, paralisia cerebral, não formação de corpo caloso (a estrutura que une os dois hemisférios cerebrais). Ou pode ser críptica, apresentando-se na forma de espasmos clônicos sem uma causa determinável. Por causa das lesões às quais está associada, a Síndrome de West tem um prognóstico muito pessimista: se a comorbidade não for letal, ela será extremamente incapacitante, levando a um baixo desenvolvimento intelectual, cognitivo e motor. Existem remédios que ajudam a controlar as convulsões e tratamentos (fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, etc.) para atenuar as sequelas psicomotoras, mas não há cura.

O caso do meu sobrinho foi investigado bem cedo. Um ponto nos deixou otimistas: nos eletros, ele não apresentava o quadro típico de West causado por lesões cerebrais, que são linhas em forma de ondas em contraste com os picos de um cérebro com atividade normal (quadro conhecido como hipsarritmia). Tratava-se então de uma Síndrome de West de origem críptica - ou seja, não causada por lesões cerebrais, mas com alguma outra causa sistêmica. Então minha irmã passou a dar atenção à alimentação dele e dela para tentar identificar alguma causa metabólica, enquanto ele tomava remédios fortes que o deixavam quase inerte. Ela tateou no escuro com os médicos até que foi detectado um cisto no cérebro dele, aparentemente benigno, mas que pode ter desencadeado o quadro.

Depois de alguns meses, ele parou de sofrer convulsões, o que também foi animador, pois na Síndrome de West não existe previsão para o fim das crises. No entanto, houve algum atraso no desenvolvimento motor. Com 1 ano e 4 meses, ele não consegue ficar em pé sem apoio, e caminha com ajuda de órteses nos tornozelos e um andador. Ele não tem firmeza nos tornozelos e não tem força necessária nos quadris para andar sozinho. Faz fisioterapia (que o ajudou a coordenar os movimentos dos braços, que também estavam prejudicados no início), psicomotricidade, e musicoterapia, além de frequentar uma escolinha onde ele é estimulado a interagir com outras crianças. Felizmente, por Deus, essa é toda a sequela que ele teve, dado o quadro arrasador que a Síndrome de West tipicamente produz. Ele tem o desenvolvimento cognitivo e intelectual aparentemente normais, é muito ativo, demonstra emoções, interage com as pessoas e as convida para brincar, é carinhoso com a cachorra da casa (e vice versa).

-Para saber mais (não esqueçam de checar as referências no final das páginas, para maior aprofundamento)-

-Epilepsia (Wikipédia inglesa)
-Lista de síndromes epilépticas (Wikipédia inglesa)
-Purple Day - iniciativa para a divulgação do conhecimento sobre epilepsia. Você pode participar ativamente
-Manual (em inglês) para o conhecimento, diagnóstico e tratamento dos diversos tipos de epilepsia
-Epilepsia.pt, site porutugês sobre epilepsia
-Artigo do Dr. Drauzio Varella sobre epilepsia, um tanto superficial, mas as recomendações são extremamente úteis
-Associação Brasileira de Epilepsia

quinta-feira, 6 de março de 2014

Somos um Rio de lixo

A greve dos garis do Rio em pleno carnaval é uma oportunidade de ouro para todos nós aprendermos algumas lições muito importantes, uma sobre responsabilidade social, e outras duas sobre relações de classe aqui na nossa cidade:

1- Quando somos crianças, mamãe e papai fazem tudo por nós até termos idade e discernimento para assumir essas responsabilidades. Enquanto crescemos, somos lentamente abraçados pelo Estado, que nos oferece serviços em troca de impostos. Mas, sem medo de errar com uma generalização, a grande maioria aceita os serviços oferecidos em troca da sua responsabilidade pessoal pelos impactos que ela causa no lugar onde ela vive. Porque é diferente a maneira como uma pessoa que depende de um poço artesiano lidar com a questão da água (inclusive com a questão da limpeza da água) e a maneira que alguém que sempre teve serviço de água encanada em casa. O primeiro dificilmente será visto lavando a calçada com a mangueira porque entende que o seu suprimento de água é limitado - como também é o do que tem água encanada, mas ele nunca sente, até que começa a faltar água no sistema, quando então ele responsabiliza a empresa. A mesma coisa acontece com a maneira como lidamos com lixo. Tem uma empresa lá que recolhe o lixo, então o máximo que a maioria se dá ao trabalho de fazer é juntar tudo em sacos e deixar na porta de casa. Tem garis varrendo a rua, então pra que se preocupar com um papelzinho amassado? Mas não há nada que nos impeça de produzir mais lixo do que o necessário, de desperdiçar comida, de jogar fora material próprio para adubo orgânico, de usar objetos descartáveis em detrimento de itens reutilizáveis equivalentes (que precisam ser lavados ou sofrer qualquer tipo de manutenção), de não se importar em separar materiais recicláveis para serem entregues nos locais adequados. Enfim, junta-se tudo num saco que será esmagado por um caminhão e desaparecerá de vista, junto com o problema. Vi num artigo que, em Fortaleza, em 12/2012, cada pessoa produziu em média quase 2 kg de lixo por dia (não contando seus excrementos). Eu sei que eu produzo menos de 1 kg nos três dias entre as coletas de sexta e segunda feiras, e que há outros como eu, então se essa é a média, a coisa é muito grave. A questão do lixo não é só uma questão de limpeza, porque todo esse lixo precisou ser produzido um dia, e consumiu recursos naturais não renováveis e energia para isso, e está sendo devolvido à natureza na forma de detritos que não se decompõe e em contaminantes da água e da atmosfera. E tudo isso porque perdemos (ou nunca tivemos!) o nosso senso de responsabilidade pelo que consumimos e pelo que é feito com o que deixamos para trás. É menos uma questão de instrução formal, porque os mais ricos e com mais formação produzem mais lixo, mas mais uma questão de educação, no sentido de formar pessoas que sabem que estão integradas a uma sociedade, e que tudo que elas fazem produz reflexos que afetam as suas próprias vidas, inclusive essa necessidade voraz de consumir o que não é necessário, porque é isso que significa bem estar e progresso.

Para não dizer que estou mergulhando no comunismo utópico, vou dar o exemplo da Tóquio capitalista para mostrar que, embora esta sociedade seja terrivelmente consumista, a questão do lixo urbano e da noção do impacto pessoal de cada um no meio ambiente pode afetar positivamente a qualidade de vida para todos. E é necessário que isso aconteça aqui também.

2- Muitas pessoas devem estar se dando conta pela primeira vez da importância do profissional de limpeza urbana para o bem estar social. Muitas pessoas, especificamente dos bairros mais ricos e estruturados, onde o serviço de coleta de lixo é habitual, porque nas favelas que o Estado abandonou (e onde, ironicamente, a maioria dos garis é forçada a morar, dado o seu salário), isso é sentido há muito tempo. Esse profissional é tão importante quanto o policial, o tabelião, o legislador e o juiz, porque a ausência qualquer um deles impossibilita o funcionamento de toda a sociedade no sistema em que vivemos. Mas quando você deu bom dia para o gari que estava varrendo a rua na sua frente e o tratou por "senhor" ou "senhora", ou quando você viu uma prefeitura pagando ao gari o equivalente a outros profissionais da área administrativa com a mesma escolaridade e sob a mesma carga horária? Não raro, o gari é uma figura desumanizada, numa função indigna e degradante, associado inconscientemente à sujeira (que você produziu e ele está limpando), precisamente como tratamos os catadores de material reciclável, que são vistos como mendigos puxando carroças - um primo meu, que se envolveu em projetos com catadores, que o diga. É uma oportunidade para avaliarmos o grau de distorção da nossa percepção desses pessoas em níveis pessoais, profissionais, e do seu papel na sociedade. E de mudar isso.

3- Parecido com o item anterior, mas um pouco mais grave que eu prefiro não generalizar, porque quero acreditar que isso não é tão difundido - mas que a prefeitura deixou transparecer de forma que foi a primeira coisa que me revoltou nesse episódio todo e me fez tomar posição em favor dos garis: a percepção da função social do gari, como alguém que está na obrigação de recolher tudo que você joga fora. "Obrigação", não porque este é o trabalho para o qual eles se dispuseram a fazer, mas porque é seu direito jogar o lixo que quiser e onde der na telha. Afinal, você paga impostos, e paga também o salário do gari (como se ele não os pagasse também). A prefeitura atual parece entender dessa forma. Ao paralisar os trabalho, primeiro garis em passeata foram recebidos pelas forças policiais como habituais perturbadores da ordem - com balas de borracha e gás lacrimogênio. Depois, quando sua greve foi considerada ilegal pela justiça, 300 garis grevistas, sobretudo os responsáveis pela limpeza das regiões da cidade com maior atividade durante o carnaval, foram avisados a comparecer à sede da empresa para tratar da sua demissão - decisão revogada ontem. E os que estão na ativa estão escoltados por agentes e veículos da Guarda Municipal, que se certifica de que eles realizarão o trabalho que lhes for determinado. Os garis pleiteiam, entre outras, reparações de perdas salariais das duas últimas gestões municipais, reajuste no vale refeição, e um plano de saúde confiável que tenha uma rede que atenda a cidade como um todo e tenha como atendê-los no que for necessário. Você pode imaginar a pessoa que limpa as coisas de que você tem nojo sem plano de saúde? E, mais uma vez, ao invés de atender a reivindicações, o Estado escolhe se colocar como antagonista da classe, como se a cada greve fracassada ou manifestação debelada ele ganhasse um troféu. E, ao invés disso, descarta os profissionais que estão dentro do seu direito legítimo de reivindicação, e os demais são obrigados a trabalhar sob a vigilância de capatazes. Isso expõe uma relação de poder que era mais comum de se ver antes de 1888.

Mas ainda bem que esta greve aconteceu, e aconteceu no momento e local em que causa maior transtorno para a cidade. Para olharmos as montanhas de lixo, que é nosso, e entender que fomos nós que fizemos isso.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

O paradoxo da Mulher Maravilha

A Mulher Maravilha tem um avião invisível. No entanto, quando ela está dentro dele, ela continua visível. O que torna o avião invisível mais inútil do que um visível, porque, além de qualquer um saber onde ele está (porque sua piloto aparece como uma mulher de calcinha de estrelinhas voando de cócoras no céu), se ele fosse visível ao menos ninguém saberia se a Mulher Maravilha está pilotando aquele avião, ou qualquer outro. Vamos ignorar o grande gênio multimilionário que criou o avião invisível pra ela e ir para a segunda questão.

Admitindo que, havendo realmente um avião invisível os seus ocupantes também ficariam invisíveis dentro da fuselagem, e que a Mulher Maravilha continua visível enquanto pilota, considero duas hipóteses:

1- O avião é realmente capaz de tornar os seus ocupantes invisíveis, porém, dentre os muitos poderes da Mulher Maravilha, um deles é o de nunca ficar invisível. O que seria extremamente inconveniente, principalmente para alguém que fez todo o caminho para ter um avião invisível;

2- A Mulher Maravilha, dentre esses super poderes, sabe voar. E é esquizofrênica. Então, quando os super heróis se despedem ao final de uma missão bem sucedida, o Super Homem ergue os braços e sai voando, o Batman entra no seu Batmóvel e sai rodando, e a Mulher Maravilha faz como se estivesse entrando no seu avião imaginário, fica de cócoras e voa com impulso próprio. De cócoras. Talvez ela faça até os barulhinhos com a boca. Isso também explica porque ela sempre sabe onde está o avião invisível. Um problema dessa hipótese é que ela nunca poderia oferecer carona a algum super herói incapaz de voar (que também entraria na onda para não estragar a ilusão, afinal, é a mulher mais forte do mundo e psicologicamente perturbada). Talvez ela consiga fazer conexões wireless...

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

A propaganda e você

Ontem à noite acompanhei a minha esposa enquanto assistia a final do The Voice Brasil. É muito raro eu assistir TV aberta. Nem vou falar do programa em si, é mais um show de calouros onde novos talentos (e pessoas com muito pouco talento, nas fases iniciais do show... e o Daniel) tem mais espaço de exposição do que a maioria dos bons artistas nacionais, com anos e anos de estrada. Isso não me choca, basta mudar de canal e topar com um similar gringo. O que me chamou mais a atenção foram os intervalos comerciais.

Minha cota de TV aberta é preenchida por Fórmula 1, onde o contexto é muito diferente, por causa provavelmente do teor do programa, do horário, e do público alvo. O trenzinho da TIM que eu penso que deveria existir de verdade, uma propaganda idiota de cerveja, um carro feio da Renault, um banco espanhol que faz o que mesmo? enfim, uma seleção de anunciantes para homens barrigudos que fantasiam sobre o glamour de ser um herói das pistas rico enquanto pegam mulheres gostosas que não se importam se ele vai ao bar beber com a galera do futebol, e estão cagando para a própria família. Como meu negócio é a corrida, eu nem costumo estar sentado durante os comerciais no início e fim da transmissão.

Ontem, ao final de cada intervalo comercial, eu me sentia mal. Culpado. No primeiro eu não entendi direito porque, achei que era algum aborrecimento extra TV (eu derramei quase todo o suco de acerola no chão e queimei uma pipoca de microondas e isso me deixou abalado) ou com o próprio programa. No segundo intervalo eu percebi que estava me sentindo culpado de não agradecer a cada anunciante por fazer do mundo um lugar melhor e da minha vida uma parada super foda. Porque, caralho, a Friboi tem um projeto social, a TIM te comunica com o mundo todo a velocidade infinita (o trenzinho, Dudu Paes, o trenzinho!), a Caixa, além de dar 500 mil em prêmios para o vencedor, te leva para a Copa do Mundo! A linguagem dos anúncios (e da publicidade mainstream como um todo, conforme fui ligando os pontos) deixa uma reticência no final da propaganda que dá a entender que eles esperam seu muito obrigado antes do fim. Até as chamadas dos programas da Globo parecem resolver todos os seus problemas.

Mas Mono, você mora numa caverna e nunca tinha percebido isso? Mais ou menos. Normalmente, quando vejo TV aberta (e TV paga, que tb é cheia de anunciantes, o que, em tese, tornam o termo "paga" quase sinônimo de "extorsiva"), as propagandas variam. Entre um shampoo que torna seu cabelo uma onda de fios brilhantes e sedosos enquanto elimina a caspa, emagrece e torna a pele mais branca e um remédio para o fígado que permite que você ingira perigosas quantidades de drogas legalizadas e continue bonito e feliz na manhã seguinte, tem uma propaganda divertida de carro, um anúncio neurastênico de supermercado, algum restaurante que você provavelmente gostaria de conhecer apesar de ser longe pra cacete, alguma coisa que quebra o padrão da linguagem. Durante o The Voice, todas as propagandas, todas, me induziam a criar uma relação de submissão ao anunciante.

Parece que a propaganda evoluiu no sentido de, primeiro, vender o produto; segundo, vender a marca; terceiro, vender você.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

De como tornar o meu aniversário moralmente mais aceitável

Hoje é meu aniversário. Antes que você corra para os comentários para me desejar parabéns (hah, como se muita gente comentasse o meu blog), você precisa saber de uma coisa ou duas: eu não gosto de aniversários. Não é algo que nasceu comigo: quando criança, ficava ansioso pela data, quando eu teria um tratamento especial, seria o centro das atenções, o dono da festa; e depois de crescido, a usava para estar com amigos, já sem aquele egoísmo infantil. Com o tempo, fui me tornando indiferente em relação a isso. Comecei a pensar do porquê de eu estar celebrando a data do meu nascimento. Não que eu ache que não seja importante. Mas de acordo com o costume, receber presentes e congratulações, em um certo ponto, ficou sem sentido. Por que eu devo ser parabenizado ou presenteado por ter nascido, se não é mérito meu? Atualmente, acho isso tudo um ritual constrangedor. Não pensem os que sempre comemoraram comigo e me presentearam (família!) que sempre foi assim e que estou sendo ingrato e demagogo! Não se chateiem, eu sempre curti tudo. É apenas algo que veio se transformando até chegar a este estado de coisas.

O trabalho (e a viagem diária que ele exige de mim, cujo tempo gasto talvez só não deixe os paulistanos totalmente estupefatos) consome quase todo o meu tempo. Tenho preocupações além da esfera pessoal, como me preparar para procurar um novo lugar para morar nos próximos meses e pensar na logística toda. Esta semana ainda foi a semana de pagamento de contas. É a penúltima semana de trabalho antes do recesso obrigatório de fim de ano (quando o Herbário é desinsetizado e ninguém pode ficar perto dele por duas semanas), então com todo o cansaço mental acumulado, não tive tempo nem ânimo para refletir sobre aniversários.

Esta semana a moça que faz a limpeza do nosso setor veio nos pedir para doarmos o que pudéssemos para a família de um funcionário do Jardim Botânico, que perdeu tudo na penúltima chuva forte que caiu sobre o Rio, semana passada. Então ontem separei camisetas, cuecas, e um moleton (calças não, pq elas me faltam, e as que eu uso em casa estão tão rasgadas que eu teria vergonha de dá-las a um mendigo), limpinhas e em um estado digno, e trouxe. Minha esposa também fez um brownie de nozes que ficou ótimo, para eu dividir com meus colegas. Então vim para o trabalho com isso na mão.

Então eu comecei a refletir. Esta data relembra o dia em que eu cheguei aqui. É algo digno de ser celebrado, sim. Estou aqui com saúde, inteligência, esforço recompensado. Me incomoda receber presentes e parabéns, porque não vejo como eu os mereço, porque já recebi muitas coisas - e é justamente o que legitima a celebração. Uma maneira de tornar a data do aniversário moralmente aceitável, para mim, hoje, é se nós dedicássemos este dia a devolvermos ao mundo e às pessoas uma parte simbólica do que recebemos deles ao longo da vida. Então estou aqui, na surdina, sem ter avisado a ninguém sobre aniversário (esperando evitar uma festinha... nem vou compartilhar esse post no Facebook :P), com roupas que eu não uso para algum desconhecido que precisa, e doces para dividir com meus colegas e amigos, e isso está me fazendo muito bem, e me fazendo aceitar o meu aniversário com muito mais facilidade.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Mais um sonho cinematográfico

Sonho longo e complexo, paranóico e com um fundo político.

Sonhei que eu descobria que era um agente de uma conspiração anarquista desde a adolescência. A coisa transcorreu assim:

No tempo do colégio, um sujeito não identificado entrou em contato comigo por celular (valha-me Deus, nem existia isso quando eu estava no colégio :P), e conquistou minha confiança transferindo dinheiro para a minha conta no banco para meu uso pessoal. Isso teria ocorrido várias vezes, em quantias substanciais. Depois de algum tempo eu entendi que, assim, estava preso ao personagem misterioso - porque o dinheiro era subtraído ilegalmente de diversos bancos - e em algum momento eu teria que fazer algum serviço para ele.

Mas o modus operandi dos anarquistas era brilhante. É até engraçado que meu subconsciente tenha colocado como anarquistas, porque o nível de organização do negócio era altamente sofisticado. As pessoas aliciadas, ou "agentes", eram instruídas a cumprirem determinadas tarefas sem saber do "plano". Então eu comecei a entender que várias pessoas que cruzaram casualmente comigo pela vida eram agentes em missão, cuja influência me induzia a tomar decisões que faziam parte do "plano". Até o meu apelido - Monocromático, um apelido que eu acabei dando a mim mesmo sem querer na vida real - era um codinome determinado para mim.

Eu mexi na organização cronológica do sonho para tornar a sua narrativa mais coerente. Porque ele começou, propriamente, quando eu, no tempo presente, estava caminhando pela Barra à noite. Por algum motivo, os cidadãos texanos, quase todos velhos, estavam fazendo filas em vários lugares para votar. Na rua, cruzei com uma moça que estava com uma mala de rodinhas e pediu ajuda para chegar em algum lugar, e me ofereci para levá-la até onde ela poderia pegar uma condução.

No caminho, um rapaz que eu não conhecia, mas sabia quem eu era, se aproximou e começou a fazer perguntas e sugerir que aqueles texanos estavam votando contra as liberdades individuais das pessoas, e que seria melhor eliminá-los, pelo bem comum. Eu acenei negativamente, e ele se resignou. Mas, enquanto conversávamos, ele pegava do chão e mexia numas hastes de metal. Quando eu reprovei a ideia de matar os texanos, ele apenas sorriu e me entregou o que ele havia armado com as hastes metálicas: um para-raios! Ele sumiu, e eu fiquei com aquilo na mão, quando vi que começava a relampejar. Sem pensar, eu joguei o para-raios para o lado, e ele caiu na porta de um banco. Um raio caiu nele, e o prédio todo explodiu.

Eu fugi dali, largando a moça para trás, porque sabia que poderia ser responsabilizado. Seguiu-se em gap temporal, em que a polícia investigou o caso e prendeu um homem, que se identificava como Monocromático. Ele era um pouco parecido comigo - deve ter sido reconhecido pela moça, que devia ter servido de testemunha - mas tinha uma mão mecânica. Ele também era um agente, e havia sido treinado para responder por mim, já que a organização conhecia minha vida em detalhes, de maneira a não gerar contradições. Eu tive então o impulso de me apresentar - não como Monocromático, mas como testemunha para livrar o sujeito. Mas, ao vê-lo, eu sabia que ele estava decidido a se submeter àquilo - e, logo depois, recebi uma mensagem no celular, dizendo que eu continuaria livre, porque eu ainda iria fazer algo muito importante... para eles.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Rush, ou de como é realizar um sonho de uma vida

Acho que eu vou ter que fazer um cross-posting com o Histórias da Fórmula 1 :^P

Você tem algo que sempre quis? Quando digo "sempre", quero dizer sempre mesmo, não algo que você descobriu há duas semanas ou há 10 anos e, desde então, o desejou. Algo que você deseja desde que você se lembra de ter se dado por gente?

Desde que eu me dei por gente eu amo Fórmula 1. Não tem explicação, não tem um fato motivador, como ir a um autódromo, ou assistir uma corrida lendária de algum piloto carismático, nem por causa de Piquets e Sennas, nem seguindo uma campanha publicitária, nem através de amigos; já estava lá quando eu despertei para esta consciência. Meus ídolos da infância (tirando o Zico, que é foda) não eram jogadores de futebol, eram pilotos de corrida. Eu queria ser como eles e fazer o que eles fazem.

Ao longo da vida entendi que aqueles homens eram feitos de uma fibra muito diferente. Duvido que mesmo que meu pai tivesse dinheiro e investisse no meu desejo pueril de pilotar, eu não chegaria mais longe do que a maioria dos pilotos aspirantes consegue chegar - até onde dá o dinheiro, ou até encontrar algo melhor pra fazer. Porque um Niki Lauda, um Alain Prost, um Ayrton Senna não são a maioria, não são um qualquer. Eram os melhores no que faziam, muito melhores do que os seus colegas, que já eram a elite dos pilotos de corrida. Como tudo na vida, você deve se esforçar para ser o melhor no que faz, mas o talento vai decidir se você será o melhor. E o que resta aos mortais é a satisfação da auto superação. Meio pessimista, mas é o que nos faz adotar pessoas extraordinárias como ídolos, sombras do nosso próprio superego.

A primeira pessoa famosa de que eu me lembro conhecer foi Niki Lauda. Provavelmente por influência do meu pai, que era fã do austríaco, provavelmente também porque ele fez um campeonato magnífico em 1984, ano em que eu me tornei um telespectador regular da categoria, aos 5 anos. É engraçado como funciona a cabeça da criança: eu conhecia o Niki Lauda, mas não sabia quem era fora do capacete e do vermelho e branco da McLaren. Achava que qualquer piloto era o Niki Lauda. Senna concedendo entrevista numa cama de hospital após um heróico sexto lugar no GP da África do Sul de 1984, e eu tentando entender como o Niki Lauda falava português tão bem. Lembro do Galvão Bueno saudando Niki Lauda na sua última corrida, no ano seguinte, e minha memória construiu um Lauda abandonando a corrida, acenando para o público e entrando num helicóptero para deixar aquele mundo e voltar para casa. Não sei o quanto disso é verídico ou inventado ou reconstituído de cenas soltas e independentes, mas posso ver a imagem na minha cabeça enquanto escrevo.

Niki Lauda teve uma história formidável na Fórmula 1, que eu fui aprendendo com o tempo. Uma ascenção rápida, um título mundial, um acidente quase fatal, seu retorno um mês e meio depois, mais um título mundial, o embate com Bernie Ecclestone (que, na sua biografia, alega ter sido a única vez em que ele se deu mal numa negociação com pilotos, quando Lauda foi para a Brabham e depois saiu porque estava de saco cheio de correr com um carro ruim), sua aposentadoria, sua empresa de transporte aéreo, seu retorno visto com ceticismo e seu último título mundial. Em parte aprendido em literatura, em parte pelo que meu pai relembrava dos anos 70.

Eu sempre consumi Fórmula 1. Foda-se se é cheeseburger de capitalismo com gordura trans. Na TV, nos meus brinquedos; um autorama do Nélson Piquet, carrinhos Matchbox, revistas, modelos de montar da Tamyia, álbuns de figurinha, vídeo games (desde o Enduro no Atari e das fichas gastas numa máquina de Pole Position quando eu nem tinha altura para usar o volante e apertar os pedais ao mesmo tempo, e atualmente no Formula 1 2009 no PSP, que eu jogo nas minhas longas viagens de ônibus pela cidade, fingindo que os solavancos e curvas são reações do meu carro). Fui ao autódromo assistir os treinos de sábado do GP do Brasil de 1984 e à corrida em 1987. Eu podia passar um dia inteiro simulando uma corrida com meus carrinhos numa pista desenhada numa prancha de madeira. Até andar de bicicleta era um pretexto para que eu fosse o Senna na Lotus e disputasse um Grande Prêmio com meus amigos em volta do meu prédio. Andar num kart com motor de cortador de grama por R$15,00 (em valores da época, em cruzeiros, cruzados, cruzados novos, cruzeiros de novo, cruzeiros reais...) num terreno irregular perto de casa era glorioso. Lembro de todas as sensações das duas vezes em que andei num kart de estacionamento mais "profissional", já na faculdade, inclusive da batida que me jogou longe e deu um preju no dono do negócio com um chassi destruído :^P

Um ponto marcante nessa minha vida ligada à superfície da Fórmula 1 foi quando fui apresentado ao filme Grand Prix, de John Frankenheimer, quando conheci - com a assessoria do meu pai - uma época ainda mais antiga. O barato do filme é que, em volta dos atores principais e das historinhas de romance, estavam lá os próprios pilotos da Fórmula 1 daquela época, e cenas filmadas nos próprios grandes prêmios de 1966. Filme legalzão, que valeu cada centavo quando comprei o DVD, já adulto, com fios brancos na barba e dores nas costas. Mas quando eu era criança, Grand Prix era muito distante para mim. Eu conhecia Jim Clark, Graham Hill, Jack Brabham, John Surtees, mas eles eram apenas figurantes ali (que eu não reconheci até ter mais conhecimento do assunto, anos depois), então a sensação de "oh, que legal, são os caras!" nunca me atingiu como atingiu o meu pai. O enredo do filme gira em torno de romances de personagens fictícios e rivalidades que parodiam e mesclam histórias verídicas acontecidas em vários momentos diferentes da história da Fórmula 1. Diante das imagens espetaculares das corridas, mesmo as cenas filmadas com carros de Fórmula 2 maquiados e dublês (menos o do protagonista James Garner, que, segundo o instrutor de pilotagem do filme, poderia ter sido um piloto profissional e dispensava dublês na maioria das cenas), o enredo é o ponto fraco do filme. Fosse um filme sobre o título mundial de Phil Hill após a morte do seu concorrente direto e companheiro de equipe Wolfgang von Tripps na última corrida do ano (um dos elementos transportado para o enredo de Grand Prix) talvez tivesse outro efeito, em outro momento.

A Fórmula 1 é cheia de histórias interessantes. Aquela coisa do piloto de ponta ser constituído de uma fibra diferente resultou em momentos extraordinários dentro e fora das pistas que merecem livros. Ou filmes. E eu sempre, sempre ansiei por isso. Um filme fiel aos fatos... não como aquela coisa ridícula do Sylvestre Stallone resolvendo suas diferenças com um rival levando dois Reynards da Indy para uma estrada movimentada...

Então veio Rush. Rush juntou tudo isso que eu escrevi acima, misturou tudo, e jogou tudo na minha cara durante duas horas em que eu nem consegui me mexer na cadeira - eu estava ocupado demais para me importar com meu próprio corpo. Eu poderia contar o filme e apontar minhas partes favoritas, porque, afinal, a história é de domínio público e eu já dedurei vários pontos aí em cima, mas como ele é um veículo para que leigos se aproximem do esporte, prefiro apenas dizer que, mesmo sabendo de toda a história do filme de antemão, não tive como não sorrir por duas horas vendo um dublê de James Hunt queimando borracha num M23 reformado, de ver Marchs, Heskeths, Ferraris, Lotus, Brabhams recriados à perfeição, assim como os atores mudos que "enchiam" o grid - reconheci até a magnífica barba de Harald Ertl na cena do briefing do GP da Alemanha - e vestiam seus cascos facilmente reconhecíveis em situações verídicas - os dublês na cena do resgate usavam os capacetes dos pilotos que estavam presentes quando aconteceu. Não tive como não esmagar a mão da minha esposa enquanto a segurava quando Lauda bate em Nurburgring, e nem como não chorar quando ele retorna às pistas. Eu fui transportado para fora do tempo, me tornei criança e adulto, regressei à minha infância e a uma época anterior a mim, que eu frequento em pensamento. Eu estava vendo um filme e analisando a atuação de Chris Hemsworth e Daniel Bruhl, e estava vendo James Hunt se apegando à única atividade em que ele se sentiu confortável em fazer em toda a sua vida autodestrutiva, e um Niki Lauda consciente do seu próprio talento e dos seus próprios limites. O filme cumpriu o seu papel de me tirar da realidade por duas horas e me jogar num mundo de sonho, intenso, irracional, fora do meu controle. Não vou questionar se o enredo romanceado forçou a barra aqui ou ali ou deixou de ser fiel a este ou aquele fato, porque não tem a menor importância para mim. Quando as luzes se acenderam, eu senti a leveza e o alívio de alguém que esperou a vida inteira para poder, metaforicamente, quase espiritualmente, fazer parte daquilo.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

História em curso

De tudo que aconteceu desde junho passado, uma das coisas que tem me chamado mais a atenção tem sido como a Globo parece perdida diante das transformações sociais, no que tange à divulgação e ao acesso à informação por meio das redes sociais, que ela não controla. Pela primeira vez a Globo, que é dona dos 2 jornais de maior circulação no Rio de Janeiro, do único jornal direcionado da classe média pra cima que restou, e da emissora de maior audiência, além de vários canais na TV paga direcionados a públicos específicos (um "educativo" e outros para os de maior poder aquisitivo, diga-se de passagem), deixou de ser o único veículo de comunicação de massa.

O principal sinal de que alguma coisa estranha estava acontecendo nas redações desse conglomerado jornalístico veio nos dias que se seguiram à final da Copa das Confederações. Os telejornais veiculavam a notícia do confronto entre manifestantes em policiais militares nas ruas da Tijuca e do Maracanã, enfatizando que "a confusão começou quando manifestantes atacaram policiais com coquetéis molotov", enquanto a TV mostrava exatamente o instante em que policiais atiravam bombas e balas de borracha em manifestantes pacíficos ANTES do coquetel molotov ser atirado. "O policial atingido passa bem".

A posição da empresa sucumbiu diante do volume de vídeos, fotos, testemunhos de gente que estava lá no meio e de gente que nem estava participando do ato, e foi atingida pelos ataques das forças do Estado, no pleno exercício dos seus direitos, só porque estavam no caminho. Então, como tem gente inteligente lá dentro, alguma hora alguém percebeu que as pessoas não estavam engolindo as versões da emissora e dos jornais, e que, como uma enorme fatia do seu mercado tem facebook, e, portanto, acesso às informações não vinculadas por eles, a imagem da empresa (que reverte no valor do seu espaço publicitário, que é, no final, onde eles conseguem dinheiro) estava abalada. Depois disso, as notícias sobre manifestações passaram a um tom mais jornalístico, como quando um rapaz foi preso em Laranjeiras acusado de jogar um coquetel molotov sobre policiais, e, usando vídeos divulgados em redes sociais, a própria Globo, em tom investigativo, colaborou para inocentar o cara - foi um policial à paisana o autor do crime, com permissão da corporação, porque depois ele foi visto circulando despreocupadamente entre os colegas.

Mas as maquinações nunca pararam. Os manifestantes mais "radicais", os Black Blocs, que se colocam na linha de frente e enfrentam a polícia, garantindo a segurança dos demais manifestantes, foram os bois de piranha da vez. Já que não se podia mais criminalizar as manifestações como um todo (manifestações estas que tem a própria Globo como alvo também), devido aos muitos olhos que registram o que não passa na TV, a empresa passou a atacar implacavelmente os Black Blocs, inspirando medo em quem nunca os viu de perto. Agora não eram mais manifestantes cometendo vandalismo, eram os Black Blocs especificamente. E, manobrando a opinião pública, abriu-se a brecha para que a câmara dos vereadores proibisse o uso de máscaras em manifestações no Rio de Janeiro, permitindo, agora, que qualquer Black Bloc seja preso por esconder o rosto - então, agora, para enfrentar o poder policial, o sujeito precisa estar com a cara limpa, tornando um alvo fácil para ameaças, perseguições, e prisões posteriores... vocês sabem o que acontece quando você enfrenta um PM cometendo abusos.

A última da empresa dos Marinho foi divulgar uma nota justificando a sua postura diante do golpe militar de 1964 como um "erro de redação" diante das "muitas versões que circulavam no momento em que aconteceu". Lógico, tentando melhorar sua imagem e agradar um governo que se diz de esquerda e que, nos últimos 10 anos ela não conseguiu abalar (nem depois das grandes manifestações de julho e das tentativas ultraconservadoras de guiar essas massas contra o governo federal). Aí, o general Clóvis Purper Bandeira, que não tem a menor simpatia pelos ex-guerrilheiros que compõe o atual governo, escreve isto, dizendo que "erro de redação é uma ova": http://www.jb.com.br/pais/noticias/2013/09/03/jb-publica-carta-do-gal-clovis-bandeira/

Definitivamente, se houve alguma revolução resultante dos movimentos, foi na relação da imprensa com a informação e os receptores de informação, que está circundando os seus veículos de comunicação e chegando sem filtros ao público que, em tese, é seu. Esta revolução ainda está em curso, e seu resultado final ainda não tem forma. Mas está sendo muito interessante observar todo o processo.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Transformação

A nossa vida normal é cheia de mesquinharia. Você se acha muito generoso, muito simpático, se acha capaz de se relacionar com qualquer pessoa, até o momento em que você encontra uma causa justa em que você se sente na obrigação moral de lutar por ela. Toda a sua percepção de si mesmo muda, e decai para algo mais realista. E então, tendo a noção da sua pequenez presunçosa, você finalmente se liberta.

Quando você luta por uma causa justa, que beneficiará a sociedade como um todo, você se vê, de repente, ombro a ombro com pessoas com quem você sempre discordou ideologicamente, com quem você compartilha o desejo de uma cidade, de um estado, de um país melhor, e lutando por pessoas que você odeia e por outras tantas que resistirão à sua luta, porque elas também odeiam você. Porque nenhuma causa é verdadeiramente justa se ela não beneficia a sociedade como um todo. Se ela consiste apenas em inverter as funções, e dar aos oprimidos o poder de oprimir seus opressores, ela apenas distribui novos papéis para os mesmos atores, conservando o sistema e os problemas inerentes que levaram ao estado atual de coisas – contra os quais você está lutando.

É algo realmente confuso e libertador, porque nos liberta dos círculos sociais aos quais nos prendemos, nos tira da nossa zona de conforto e nos apresenta a uma pluralidade de ideias, conceitos, contextos sociais e intelectuais com os quais não estamos habituados. Também nos liberta dos preconceitos, porque, enfrentando as injustiças sociais, estamos beneficiando não apenas aqueles que gostamos, ou aqueles que achamos que merecem uma vida melhor – nossas ações deixam de ser guiadas pelas nossas noções mesquinhas de realidade e passam para um plano maior, onde fulano não é mais um trabalhador ou um vagabundo, um playboy ou um trombadinha, ateu ou evangélico, mas ser humano, compatriota, ser social, irmão, que compartilha das mesmas ruas, dos mesmos serviços públicos, das mesmas dificuldades impostas pelo sistema, que sofre dos mesmos males e precisa da mesma ajuda. É estender a mão ao desafeto, ao indesejado, ao rejeitado, de colocar a sua integridade física e a sua liberdade em risco por ele. É um ato de profundo altruísmo.

Participar ativamente de manifestações, especificamente aqui, contra os governos estadual e municipal - contra os abusos de poder, a apropriação do Estado por empresários mediante clientelismo, do uso do dinheiro e do espaço públicos para interesses particulares - tem sido uma experiência transformadora para mim. O primeiro reflexo de tudo isso que eu teorizei aqui foi a flexibilidade de pensamentos que eu notei ao longo dos primeiros dias – defender isto e aquilo, e em seguida, diante de novos fatos e opiniões, reconhecer os erros e traçar novas estratégias. Nunca me senti tão satisfeito com o meu papel na sociedade, e com os efeitos reflexos da sociedade sobre mim.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Somos todos favela

Cheguei ontem ao Leblon depois das 18:00. O ponto de encontro para a manifestação marcada com dias de antecedências pelas redes sociais era a esquina da Delfim Moreira (a rua da praia, para quem é de fora) e a Aristides Espínola (a rua onde mora o Sérgio Cabral). A Aristides estava bloqueada na esquina da Delfim Moreira e na General San Martin (a primeira paralela à praia). A Delfim Moreira estava bloqueada inicialmente pela CET-Rio no sentido Leblon da Rainha Guilhermina até a Niemeyer. Quando cheguei devia ter umas 400 pessoas ali, mas ao longo das horas chegou a ter provavelmente mil. A pista sentido Ipanema também acabou fechada, mas pelos manifestantes.

O plano inicial era fazer barulho ali na praia até o choque começar a dispersar a multidão. Levaram cartazes, instrumentos musicais, bandeiras, megafones. Havia computadores projetando manifestações em vídeo e PDF na parede dos prédios com 2 datashow. Estava tudo bem organizado. Eu via a movimentação da PM em volta, posicionando gente nas ruas vizinhas, carros passando pela Av. Niemeyer em direção ao Vidigal (aí eu soube que tinha uma turma na Rocinha que insistentemente fechava o túnel Zuzu Angel, e a PM tinha que intervir a todo momento para liberar a via). Alguns P2 foram identificados e expulsos da manifestação (eu achei que tinha identificado um, mas era só um segurança da Globo, que tinha uma equipe de reportagem descaracterizada ali no meio, misturadas a equipes de rádios, sites e canais da internet). Um grupo grande de manifestantes dava a volta no quarteirão para se posicionar na outra ponta do bloqueio, na San Martin, e dividir a atenção da PM.

Ao longo do tempo, uma espécie de inteligência coletiva amadureceu a ideia de deslocar a manifestação toda para a San Martin, mantendo apenas um contingente suficiente para manter a Delfim Moreira fechada. Com as duas vias fechadas, o congestionamento chegou até a Ponte Rio-Niterói (de onde vinham alguns camaradas, e que, por conta disso, demoraram umas 4 horas para chegar). Eu mesmo vinha para a pista toda vez que o guardinha da prefeitura tentava liberar o tráfego, e os poucos que permaneciam na Delfim conseguiam fazer os motoristas voltarem para tentar outro caminho. O objetivo dessa divisão era concentrar a pressão sobre o choque na San Martin, porque, quando eles abrissem fogo para dispersar a multidão, a guerra iria se espalhar para o meio do Leblon, e não se dissipar pela praia - gás lacrimogênio para os nobres cidadãos de bem em seus apartamentos no metro quadrado mais caro do mundo, uma ideia muito tentadora.

Por volta de 22:00, os black blocs (um pessoal bem organizado que vai para a linha de frente, pronto para bater e apanhar) saíram da praia e se dirigiram para a San Martin. Pouco depois o grupo da Delfim Moreira se dividiu, seguindo pelas duas ruas paralelas à Aristides Espínola. A tensão, nós víamos, na outra ponta do bloqueio já era muito grande, e se a coisa estourasse, éramos poucos, e seríamos alvos fáceis para o choque permanecendo na praia. Eu fui com a turma que seguiu pela Rainha Guilhermina.

Infelizmente eu não vi como tudo começou. Quando chegamos à esquina da Guilhermina com a San Martin, víamos e ouvíamos tudo: bombas de efeito moral, tiros de borracha, fumaça, barricadas em chamas. E isso vinha não só da esquina da Aristides, como também do outro lado - paralelamente, um grupo grande se manifestava na Bartolomeu Mitre, a algumas quadras dali. Eu ouvi, depois, que houve um incidente num prédio da Globo naquela rua, e foi o sinal para o choque abrir fogo simultaneamente lá e cá. Então, parados no cruzamento sem saber de onde viria o fogo, alguns começaram a usar tudo que podia ser inflamável ou tirado do lugar e para fazer barricadas na rua. Eu caminhava tranquilamente no meio disso tudo, exercitando a não-violência como nunca na minha vida. Enquanto o pessoal decidia o que fazer, eu caminhei na direção da Ataulfo de Paiva - a artéria central do Leblon - onde eu esperava traçar meu caminho até a Lagoa-Barra, por onde eu poderia ir para casa. Mas parece que meu caminhar incentivou o pessoal, e logo estavam todos lá (por isso parei num restaurante todo envidraçado e pedi ao maitre que estava na entrada para descer as portas de ferro).

A situação na Ataulfo era bastante tensa. É outra rua paralela à praia, também fazendo esquina com a Aristides e a Bartolomeu Mitre. A porrada estava comendo sem perdão na Aristides. Na intenção de levar o transtorno da guerra urbana para o Leblon e provocar a truculência da PM, alguns jogavam pedras em vidraças de lojas, quadros de publicidade, placas, sinais de trânsito, tudo que não fosse residencial e pudesse ser quebrado. Uma agência do Itaú foi completamente destruída (pelo que eu, pessoalmente, não senti qualquer remorso e até tive vontade de colaborar, porque atacar o banco é atacar o banqueiro... "não-violência, não-violência, estou caminhando com Gandhi...". Lamento pelos demais comerciantes que terão prejuízo). Não demorou muito para que outro pelotão do choque subisse a Rainha Guilhermina, assim como ainda outro pelotão que vinha subindo a Ataulfo por trás de nós. A gente sabe quando está na alça de mira das bombas do choque quando as luzes das ruas são apagadas (tanto para desorientar os manifestantes como para impedir as câmeras da prefeitura de registrarem os abusos). Quando as luzes se apagaram, a maioria rumou na direção da rua Dias Ferreira, o centro da boemia do bairro. Mas nisso também voavam pedras para todos os lados. Eu fiquei com medo das pedras (porque pedra não tem alvo), e procurei sair dali o mais rápido possível. Prefiro balas de borracha.

Nem lembro como cheguei na Dias Ferreira. O choque foi empurrando todas as frentes para lá, especificamente para a esquina da Pizzaria Guanabara, onde caímos numa armadilha. Luzes apagadas, alguém veio avisando que o BOPE estava vindo da Bartolomeu Mitre. O choque avançava pelas transversais, empurrando mais gente para o cruzamento. Ali foi o grande erro deles: a rua estava cheia, os bares com suas cadeiras nas calçadas lotadas de moradores locais, que aproveitavam para ver o jogo do Flamengo pela TV. Carros estavam estacionados na rua. Acuados, os manifestantes com mais "sangue nos zóio" destruíam tudo que podiam, jogando todo tipo de coisas na rua. A maior parte dos manifestantes estava acuada na calçada para tentar fugir do fogo cruzado (pedras contra balas de borracha). Então explodiram as bombas, a fumaça tomou conta, e quem ainda não tinha sido batizado com gás lacrimogênio, como eu, experimentou a sensação pela primeira vez ali. Inclusive o pessoal que só estava ali tomando uma cerveja, e os que estavam trabalhando, indistintamente. Nessa hora é que vale a pena ser vândalo, porque, já que a punição da polícia não distingue culpados de inocentes, pelo menos você não se fode à toa. Para minha sorte, encontrei uma máscara com filtro de carvão no trabalho, e embora os olhos ardessem, ainda consegui respirar.

Entrei numa rua qualquer, onde uns 10 PMs "normais" (sem o aparato do choque) fazia um cordão frouxo. Passei por eles de braços levantados, na hora que um deles deu o comando para avançar, e então me vi na Visconde de Albuquerque, fora da confusão, e com caminho livre para a Lagoa-Barra. Um amigo meu me telefonou na outra ponta da avenida oferecendo carona, então lá estava eu de novo na Ataulfo de Paiva, na cabeceira da rua. Tudo que não era residencial estava apedrejado, quebrado, queimado, e jogado na rua, impedindo os cruzamentos. Ataulfo faz esquina com a Dias Ferreira, e cerca de 15 metros adiante com a rua Rita Ludolf (onde o choque também botou gente pra correr), e os dois cruzamentos estavam impedidos. A maior parte dos manifestantes que ficaram para a guerra se reagrupou depois dessa segunda barricada, na altura da Aristides Espínola, esperando ou o choque chegar para o confronto, ou relaxar a segurança do quarteirão do Sérgio Cabral e permitir que todos voltassem para lá. Eu e meus amigos ficamos na primeira barricada, onde havia pouca gente. Patrulhas da PM criculavam na Visconde de Albuquerque (desses eu tenho medo, são esses que prendem, torturam, e somem com as pessoas... o choque, pelo menos, é previsível), ônibus com reforços iam em direção à praia, onde um grande pelotão se reunia. Um pequeno grupo do choque, armado apenas de escudos e cacetetes, subiu de maneira hesitante a Rita Ludolf. Eu vi na hora em que eles foram destacados de um grupo maior que estava correndo a San Martin em direção à Bartolomeu Mitre, num momento de desorganização. Se o pessoal que estava além da segunda barricada soubesse que havia um grupo pequeno de PMs basicamente desarmados, ia rolar uma carnificina ali. Foi quando eu fui embora.

Levar a guerra, que seria inevitável, para o meio do Leblon foi uma estratégia interessante, porque expõe aquela parte da cidade aos métodos da polícia que eles acham que está lá para protegê-los, mas que vai atirar bombas e gás lacrimogênio neles, nos seus filhos e nas suas propriedades indiscriminadamente. E que eles tem um governador, um vizinho, que é quem causa tudo isso e deixa acontecer. Porque fazer isso na Zona Oeste, na Rocinha, na favela, ninguém ligaria a mínima, porque "bem feito, na favela só tem bandido mesmo". Desde o começo da onda de manifestações, somos todos tratados como favela. A nobreza precisava sentir isso na pele - e nos olhos também.

PS: duas observações pertinentes, que eu só percebi quase indo embora:

Uma: a estratégia manjada do governo (com a colaboração da prefeitura, que é a responsável pela limpeza das ruas) de jogar a opinião pública contra as manifestações através de atos de vandalismo foi feita com caçambas de entulho espalhadas por todo o bairro. Na Rainha Guilhermina tinha uma, onde a galera se armou para quebrar tudo mais à frente. Na entrada da Niemeyer tinha outra, que não foi usada porque ninguém correu para lá. Eu passei por um tijolo de concreto largado numa calçada. Havia munição à vontade. Cortesia do Eduardo Paes.

Outra: Por volta de 11:45, quando eu estava na barricada da Ataulfo de Paiva com a Rita Ludolf, tudo ficou tranquilo. As pessoas conseguiram se reagrupar mais à frente porque o choque parou de atirar. O pequeno grupo do choque "desarmado" que eu vi subir a Rita Ludolf tinha sido destacado de um grupo maior e colocado ali para apanhar, porque eles não poderiam fazer nada para impedir o avanço da turba, nem dispersar ninguém só com escudos levantados e cara feia (de medo, na verdade). Nesse horário acabou o jogo de futebol, e um camarada que estava vendo TV pelo celular disse que a Globo estava entrando ao vivo, provavelmente também a Band... para cobrir a violência exclusiva dos "baderneiros" no nobre bairro do Leblon.
 
eXTReMe Tracker