segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

A morte na era da pós-verdade (contém spoilers de filmes no fim)

Porque 2016 foi um ano tão infeliz para a humanidade e 2017 até agora não dá sinais de que será muito diferente (bastaram alguns minutos da virada do ano novo para um cidadão de bem assassinar ex-mulher, filho, e mais uma dezena de pessoas em Campinas, e outro metralhar uma centena numa boate em Istambul... sem falar em alguns prefeitos do apocalipse começando os trabalhos no dia de hoje), vou arriscar falar sobre a morte, especificamente um aspecto bastante confuso e sombrio dela, sobre como a nossa relação com a morte está mudando radicalmente.

Para começar, eu me assumo taoísta, o que significa que a morte, para mim, é como se fosse a dispersão de toda a matéria e energia em direção à sua origem, que é o próprio Universo. O que, em termos práticos, não é muito diferente do aspecto biológico do fim da vida de qualquer organismo: ele é reabsorvido e transformado pela biota e elementos naturais, e tudo que o compunha é reintegrado à terra, ao ar e aos que se alimentam disso. Ou seja, a morte é não apenas a cessação de funções vitais, mas seria também a cessação da individualidade - se tudo que compõe o organismo, e consequentemente o indivíduo, começa a se dispersar no momento da morte, também essa individualidade desaparece. Imagine que você morre na selva e seu corpo repousa sobre o folhiço úmido. O que resta de você - seu corpo, embora já entrando internamente em colapso - está ali, mas não demorará muito para que fungos, insetos e bactérias transformem você no mais novo restaurante fast food da floresta, e cada pedacinho do que você já prezou como seu estará no estômago ou vacúolo de milhões de outros seres, serão processados e entrarão na construção dos seus próprios corpos. No clima úmido, até seus ossos - o esqueleto que instintivamente reconhecemos como tudo que resta da existência humana após a morte - serão desfeitos. O que existia da sua individualidade física não existe mais. Aí entram elementos de fé - a de que há um espírito ou alma, "anima" em latim, que, dependendo da crença, serve para fazer a matéria funcionar de maneira coerente, ou até pode ser a matriz imortal de toda a existência, sendo o corpo apenas um traje temporário. A diferença no taoísmo é que a alma, se existe, também se dissolve e "retorna ao Tao" para ressurgir como outras coisas, integrando novas individualidades. Se alma não é matéria, admitindo então que ela seja energia, ela deve se dispersar, como objetivamente dispersa-se a energia contida nas ligações químicas que são quebradas nos processos de decomposição. A alma, assim, pode até ser eterna (se você considerar que, ao "regressar ao Tao" e ser reabsorvida pelo universo, ela não desaparece, mas se torna uma mínima parte de tudo), mas não tem carteira de identidade.

Dito isso, eu ressalto que a minha relação com a morte é de quase indiferença. Sinto compaixão e respeito, até reverência se acho adequado, mas não sofro pelos que se vão, independente do vínculo - o que me causa problemas quando preciso lidar com alguém que está sentindo esta dor. Porém, entendendo outras maneiras de se encarar a mortalidade (que tem a ver com a noção de imortalidade da individualidade na forma de uma "alma" identificável que permanece em algum lugar após a morte), conheço e entendo como as pessoas lidam com isso. O luto, a necessidade de se preencher (ou preservar) vazios emocionais, a idealização do falecido, a angústia tornada esperança de encontrar na fé uma maneira de se religar aos que se perderam. Mas seja como for, a morte é encarada na maioria das sociedades, mesmo nas que creem na reencarnação (os hindus e os budistas, apesar de acreditarem, a seu modo, na permanência do espírito, também pranteiam seus mortos em funerais), como o fim da existência física.

Indo finalmente ao ponto. A internet evoluiu para ser uma imensa central planetária de relacionamentos, onde todos estão potencialmente em contato com todos, e esse contato é estabelecido com a troca de mensagens, fotos, vídeos, anúncios comerciais, produções artísticas, etc. Dependendo das regras de hospedagem, tudo que é postado fica acessível para a posteridade. Mesmo intensamente dinâmica, a internet, assim, é um depositário de documentos do passado. Em 2013 estimava-se que apenas Google, Microsoft, Amazon e Facebook somavam 1,2 bilhões de gigabytes de dados armazenados. A World Wide Web hoje possui cerca de 10^24 bytes de capacidade total de armazenamento, ou seja, muito mais cabe aí dentro. Duas características curiosas marcam a relação das pessoas com a internet, derivando daí uma terceira. A primeira: muito do que se escreve é redigido no tempo presente, sejam notícias, artigos, tweets, e-mails pessoais ou corporativos, o que faz sentido no momento em que são escritos. Mas são armazenados na "memória" da internet no tempo presente, de maneira que um post de um blog sobre uma crise existencial de um internauta qualquer nos idos de 2004 pode alarmar um leitor compassivo de 2017, se ele não atentar para a data da postagem. E era uma trollagem comum nos tempos de orkut "upar" tópicos muito antigos para instigar discussões acaloradas entre os mais distraídos, quando a discussão já havia encontrado um termo, o criador do tópico já nem lembrava do que havia escrito, ou nem sequer estava mais ativo na rede. Sites como o E-Farsas existem porque pessoas desavisadas compartilham histórias (muitas vezes falsas ou descontextualizadas), não datadas, pensando estar compartilhando grandes novidades. Por estar massivamente registrada em tempo presente, o que existe na internet soa permanentemente atual.

A segunda característica é o formato digital dos documentos. Livros e cartas também são escritos no tempo presente, ou pretendem falar do tempo e do espaço em que seus autores estavam inseridos, mesmo no campo da ficção. Mas o papel envelhece. O texto digital não. É possível examinar uma carta e determinar, pela caligrafia, pelo material, pela tinta, a época em que foi escrito - as fichas catalográficas dos livros tem as datas da primeira publicação e da edição presente - e essa datação nos ajuda a colocar mentalmente o documento no tempo pretérito. Um documento digital da WWW de 1995 é, em aparência, similar a um de 2016, e, se ele não estiver devidamente datado, seria preciso mais do que a habilidade de upar fotos de gatos para saber a data de criação daquele arquivo específico. Antes de postar qualquer coisa mais elaborada, eu escrevo meus textos no bloco de notas do Windows, que conserva um ar de anos 90, o que torna páginas antigas aceitavelmente familiares para mim. Então tudo tem cara de novo, ou, no máximo, "vintage".

Então a internet está repleta de documentos "atuais". Só que esse conteúdo todo é produzido por pessoas, e as pessoas morrem. A internet como conhecemos existe no Brasil há quase 22 anos, é um tempo que excede a maioridade aqui no país. Muita gente morreu nesse período. Muita gente nasceu E morreu. Se um internauta produziu alguma coisa e o servidor em que se hospedava continua online, o que ele produziu é facilmente acessível em mecanismos de busca. Se ele produziu um texto pessoal em 2002 falando sobre como o seu cachorro late muito de madrugada, e ele, o usuário, morreu em 2004, então temos um texto pessoal, em tudo atual e em tempo presente, contando-nos uma novidade na sua vida, vindo de uma pessoa morta. Eu tive um amigo que se suicidou em 2013, cujo blog no Livejournal, com suas mais recentes excursões montanhistas e entreveros familiares, continua no ar. Até recentemente a página da minha ex-namorada no Facebook ainda estava lá, 5 anos depois dela morrer de câncer. Em 2001 eu batia ferozes partidas de batalha naval online com uma senhora de 59 anos que hoje teria 74, idade na qual muitas pessoas já morreram de "velhice". A internet é povoada de gente morta que, graças ao formato e ao conteúdo, se comunica conosco em tempo presente, muitas vezes sem sabermos. A morte, o fim da existência física, está deixando de ser sentida porque a individualidade, na forma de blogs pessoais e perfis em redes sociais, está sendo preservada. Aqui foi feita uma estimativa de cerca de 10273 usuários do Facebook morrem por dia, e que desde a sua criação, os mortos já somam cerca de 30 milhões - em 2130, a quantidade de perfis "mortos" superará a de usuários vivos.

A morte física está deixando de ser motivo de luto, e está lentamente se tornando parte do espetáculo - até literalmente, com a ocorrência cada vez mais numerosa de suicídios anunciados ou transmitido em redes sociais, para entretenimento de um público assustadoramente insensível ao sofrimento alheio. A derrocada de Amy Winehouse, culminando com a sua morte, foi intensamente coberta pela imprensa e compartilhada, passo a passo, pelas pessoas na rede, constituindo assim no maior e mais longo suicídio assistido de que eu tenho conhecimento.

Uma terceira característica das interações humanas na internet é a sua superficialidade. Ninguém realmente conhece ninguém, e mesmo amigos pessoais que não se veem por muito tempo e mantém um tênue vínculo pelas redes sociais, acabam flutuando de volta até essa camada superficial, porque na maior parte do tempo essas redes suprem a necessidade de contato, interação, sensação de pertencimento e aceitação, enquanto estamos ocupados trabalhando e produzindo. As pessoas exibem e se relacional com a superfície; as fotos felizes, intencionais e com os melhores ângulos, os textos impessoais e protocolares, a colagem de opiniões alheias (e a fuga do debate). Ninguém se dá ao trabalho de elaborar um pensamento ou opinião, porque ninguém lê "textão" (ah, eu e o criador do Twitter sabemos bem disso!) A era da "pós-verdade", em que mentiras e boatos que se adequam a padrões de pensamento e ideologias específicas são mais prezados do que dados e fatos, mesmo tendo consciência da mentira. Pessoas chegam a ser tão superficiais que é difícil entender o que elas querem dizer com tantas meias palavras, são tão agressivas contra o que se opõe e não elaboram o que defendem, o que acreditam. Essa superficialidade amortece qualquer sentimento de empatia, e facilita o surgimento de comportamentos hostis que os códigos sociais da sociedade pré-internet reprimia - este fim de semana houve uma segunda onda de ofensas raciais à filha de um casal de atores, que, por Deus, tem só 2 anos de idade! E também, voltando ao assunto, banaliza a questão da morte, que pode facilmente virar motivo de piada - mesmo piadas insistentes, os memes, das quais nem a criança síria fotografada morta na praia escapou.

A morte como parte do espetáculo - e, ta-da, o que me levou a escrever sobre isso - não é matéria para um futuro distópico contra o qual devemos nos prevenir para evitar. Isso já está tão naturalizado que nem sequer é uma novidade no mundo do cinema: usar a imagem de atores falecidos em obras cinematográficas inéditas é uma prática que vem do cinema em preto em branco. Na década passada O Homem de Aço trouxe um Marlon Brando digital dos mortos para reviver o papel de Jor-El, o pai do Super-Homem, papel vivido por ele em 1979. Recentemente, em Rogue One, de 2016, a Disney, proprietária da franquia Star Wars, escalou Peter Cushing, ator britânico morto duas décadas atrás, como Grand Moff Tarkin, o sombrio oficial imperial que comanda a Estrela da Morte. Seu rosto e porte físico foram recriados em computador e dublados, e não apenas para uma participação especial, mas desempenhando um papel significativo na tela. A Disney é dona dos direitos sobre o personagem, e aparentemente sobre a sua imagem, precisando apenas da autorização da família do ator para fazê-lo, o que permitiu que ela inserisse ali também uma Carrie Fisher 40 anos mais jovem. Assisti o filme na antevéspera da morte da atriz, e soube que ela já havia gravado suas cenas para o próximo Star Wars, garantindo assim que o próximo grande lançamento da série contará com uma estrela morta num papel central de um filme inédito - e a única coisa que impede o estúdio de usá-la indefinidamente em filmes vindouros como a Princesa Léia é a assinatura num papel. Ela ter morrido se tornou irrelevante do ponto de vista prático.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Jornada de Trabalho

Meu pitaco sobre o lance de permitir ao empregador acertar com o empregado a distribuição da sua jornada regular de trabalho em turnos de 12 horas diárias. Para isso, vamos supor que a chefia acertou comigo que meus turnos passariam a 12 horas diárias - afinal, eu sou bolsista, e o único direito trabalhista que eu tenho é o de pedir para cancelar a minha bolsa.

"A jornada semanal vai continuar a mesma, no final não muda nada."

Eu trabalho 40 horas semanais, 8/5. Meu trabalho é 100% intelectual, ou seja, fico sentado na frente de um computador resolvendo diversos tipos de problemas. Na verdade, divido meu trabalho em três ou quatro funções principais.

A primeira, de revisão e qualidade de dados, consiste de percorrer com os olhos planilhas de dados com até 11 mil linhas em busca dos erros mais grosseiros aos mais sutis, pelo menos 16 vezes (são as categorias de dados que precisam de revisão), ou seja, meus olhos precisam passar por até 176 mil dados que variam entre nomes de pessoas, localidades, coordenadas geográficas, datas, nomes científicos, e uma variedade de informações alfanuméricas que, pela natureza da origem, não são padronizados. Uma vez encontrado um erro, preciso recorrer à imagem da planta de onde o dado foi capturado para ver o que é o correto. Frequentemente esse dado é uma assinatura ou rubrica que demanda a consulta a bases de dados online, cruzando informações que normalmente são esparsas, torcendo para que alguém tenha capturado aquilo algum dia - e interpretado a caligrafia corretamente. Aqui é a visão e a concentração que são exigidas.

Além disso, eu percorro uma equipe de 14 pessoas, estabelecendo com eles as diretrizes de trabalho, orientando dúvidas específicas, anotando problemas e sugestões a serem discutidas com a chefia ou o TI, e mantendo a moral elevada, e assessorando em situações diversas. É onde a memória e a agilidade e precisão em consultas precisam ser eficientes.

Um terceiro aspecto é que eu alimento nossa base de dados de nomes científicos. Cada vez que uma espécie precisa ser capturada, mas ela não está na base, é minha função incluí-la. Mas por questão de curadoria, temos restrições quanto a táxons ilegítimos e inválidos, então a cada nome a ser adicionado, eu preciso fazer uma pequena revisão taxonômica relâmpago, que inclui, frequentemente, a consulta às obras princeps (que, se eu der azar, vem escrito em línguas que não o latim, como sueco, holandês, ou dinamarquês). As bases de dados que eu consulto nem sempre indicam o status taxonômico de um nome, então a necessidade desse tipo de pesquisa surge o tempo todo. Para se ter ideia, pessoas fazem teses de doutorado com esse tipo de trabalho, e revistas normalmente aceitam revisões de uma espécie, que eu preciso revolver em minutos para dar andamento ao trabalho. Em mais de uma vez, já precisei adicionar mais de 200 nomes novos na base em um dia (fazendo minha contagem, só com o meu login atual, ultrapassei os 11 mil nomes de famílias, gêneros, espécies e táxons infraespecíficos, sem contar os que eu pesquisei e atestei a invalidade do nome, que não estava indicado nas fontes de consulta, e não adicionei). Essa parte exige o que meu raciocínio pode fazer de melhor.

Uma quarta parte inclui lidar com pessoas fora da equipe - o pessoal do TI, a chefia, parceiros do Brasil e do exterior (enviando ou recebendo dados, ou tirando dúvidas), a coordenação com outros pontos da nossa "cadeia produtiva" para evitar gargalos, e uma ou outra demanda dos pesquisadores da casa. Além de atualizar e monitorar a página do facebook do projeto.

Isso em 8 horas diárias, 5 dias da semana. 40 horas semanais.

"Se fizer turnos de 12 horas, vai trabalhar só 3 dias e mais 4 horas num outro, e vai folgar três mais um dia quase inteiro. Aí eu vi vantagem."

Meu trabalho exige 100% da minha capacidade mental em 100% do tempo. Não só o desempenho da minha função depende disso - porque se eu aliviar, o volume de trabalho por fazer se acumula demais, e para se ter ideia, um problema de TI impediu que eu revisasse planilhas por um mês, e eu só consegui colocar esse trabalho em dia 4 meses depois - como toda a produção da minha equipe depende disso. Chegamos a informatizar coletivamente 1400 espécimes por dia (sem que a equipe toda esteja trabalhando, pois como eles cumprem 20 horas, seus horários são intercalados). É um pequeno herbário por semana, e tudo isso precisa de orientação, assessoramento e revisão antes de ser colocado online.

Entenda que é um trabalho que me dá muito prazer, porque toda pequena dúvida ou problema solucionados me dão uma sensação de um pequeno orgasmo mental, a impressão de que o cérebro cresceu mais um pouco. Poucas vezes eu me senti tão foda como quando eu descobri onde fica o tal "Sertão d'Amaroleité", uma localidade em que naturalistas europeus coletaram no século XIX e que a literatura botânica nunca conseguiu precisar. A relação entre geografia e sua contextualização histórica (porque lidamos com 250 anos de coletas de plantas no Brasil, e as localidades apontadas mudam de nome, de estado, de país, e eu tenho que saber e informar onde ela fica exatamente, hoje. Cada vez que eu descubro isso, é uma felicidade. Além disso, a palpabilidade do que nós produzimos, e a dimensão da importância de um herbário virtual online de plantas brasileiras com quase 2 milhões de exemplares mantém a minha motivação em alta.

Mas cansa. Como qualquer atividade praticada continuamente com esforço, causa fadiga. Chego à 8 ao trabalho, mas só atinjo minha velocidade de cruzeiro às 9:00. Tenho intervalos de 30 minutos de manhã e tarde, e uma hora de almoço (não contabilizada, lógico, mas que às vezes eu uso para adiantar algum serviço que ficou para trás na lista de prioridades), que servem para descansar os pulsos e os olhos. Lá pelas 16:30 eu já estou me arrastando. A planilha embaralha na vista, já não consigo encontrar informações porque não consigo mais formular as perguntas (porque na ciência, se você não souber formular a pergunta, o que você quer saber pode estar se esfregando na sua cara, e você não vê). Ou seja, tem uma janela aí de pouco mais de 6 horas em que eu consigo imprimir meu máximo. E falo pela equipe, tanto pelo que eles me falam, como pelo que eu vejo da produção deles enquanto eu faço a revisão dos dados, que eles sofrem do mesmo cansaço quando optam por cumprir 8 horas num dia.

Na hipótese de fazer isso por 12 horas, ao invés de produzir mais, eu continuaria tendo um pico de 6 horas de qualidade total, e ao invés de 1 hora e meia ou 2 de intensidade reduzida - o que, projetando para a semana, significa 30-35 horas de produção máxima e 5-10 piscando os olhos para recuperar a sua umidade natural - isso seria agora metade do meu tempo de trabalho. A minha produtividade cairia quase pela metade ao final da semana.

Isso porque é um trabalho mental. Imagine virar cimento, embalar, carregar e descarregar. Quem trabalha mesmo - não necessariamente quem tem emprego e bate cartão, mas quem emprega seu esforço físico e mental no trabalho da hora que chega até a hora que sai - sabe que não é possível manter o ritmo por muito mais tempo. E muitos já devem ter intuído que 8 horas já é demais - em países mais civilizados, a direção é pela redução da carga horária semanal para 30 ou 36 horas, porque já se notou que a eficiência do trabalhador está relacionado ao tempo em que ele consegue imprimir seu esforço no trabalho de maneira eficaz e quanto tempo ele consegue descansar ou se dedicar a outras atividades entre um dia e outro, e que no regime de 40-48 horas paga-se por um tempo basicamente ocioso em que se produz pouco e impede o trabalhador de fazer outra coisa, inclusive descansar.

Eu sei que já tem gente que trabalha 12 horas. Mas pagam-se adicionais, tem-se folgas obrigatórias. Existe todo um conjunto de leis que protegem o trabalhador

"Mas os turnos de 12 horas não serão impostos por lei. Ela apenas permitirá que patrão e empregado acertem esse regime de comum acordo."

Aí eu começo a suspeitar da ingenuidade ou da má intenção do argumento. Patrão e empregado negociam até o ponto em que o empregado seja indispensável na sua função. Se houver duas pessoas capazes de realizar um serviço, o que não aceita trabalhar nos termos do patrão corre o risco de perder o cargo para outro que aceite. O patrão tem o dinheiro, e o único capital de que o trabalhador dispõe para negociar em troca é sua força de trabalho - e como existem mais trabalhadores do que patrões, e eles detêm o dinheiro, a relação é absolutamente desigual. Vai ter muita gente aceitando isso, porque senão vai ter outro que aceite, e ele será descartado. Na minha situação, por exemplo, em que a relação trabalhista já é frágil - sou bolsista, e já não existe praticamente nada me amparando - em precisaria ser o melhor que existe na minha função para convencer minha chefe de manter a jornada em 8 horas, que já é muito.

Portanto, possibilitar a normalização do aumento da carga horária diária para 12 horas não vai gerar emprego nenhum porque não vai abrir vaga, a menos que aumentem a duração das semanas (nenhuma vaga que não seria gerada comprimindo-se a carga diária para 6 horas, por exemplo, possibilitando o funcionamento das empresas em até 3 turnos sem adicional noturno), como vai expor o empregado às exigências da empresa (a tão sonhada negociação), e vai ocasionar, muito possivelmente, uma queda geral de produtividade em vários pontos das escalas produtivas. Quem propõe e defende esse tipo de coisa:

1- É empregador e não tem contato direto com seus funcionários;
2- Nunca trabalhou na vida;
3- Trabalha na boa, fazendo um ou outro serviço pontual e ficando boa parte do dia de bobeira - acha que "capinar um lote" é trabalho duro, mas nunca capinou um lote.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Buenos Aires

Achou que depois do êxtase em Londres eu ia ficar quieto no meu canto aproveitando as memórias e enchendo a barriga de chá com biscoitos? Hah!

Pois em maio tomei coragem, uma sobressalência na minha poupança, e as libras que me sobraram de Londres, e parti com minha esposa para um fim de semana Buenos Aires! Dessa vez, apenas para fazer turismo, muito embora, por não estar em férias nem aproveitar o feriadão, pois fui na semana anterior a Corpus Christi, quando passagens e estadia estariam bem mais caras, contasse apenas com dois dias para fazer tudo. Então comecei decidindo que o voo deveria chegar lá o mais cedo possível numa sexta, e sair o mais tarde possível (pensando em termos de transporte quando chegasse no Rio) no domingo. Então chegamos lá numa sexta de manhã.

Optei por um voo da Aerolineas Argentinas que chegasse às 9:00 no Aeroparque. O Aeroparque é um aeroporto pequeno próximo ao Centro, uma distância que poderia ser vencida a pé (de táxi foram 20 minutos, talvez). A maioria dos voos desembarca no Ezeiza, aeroporto internacional de maior porte, mas muito na periferia da cidade. Para quem conhece o Rio, é exatamente a diferença, de tamanho e distância, entre o Santos Dumont e o Galeão. Na chegada ao aeroporto, você passa pela imigração. Com um documento de identidade com foto, você recebe um papel com o carimbo autorizando a sua entrada no país, mas tem o inconveniente de que você não poderá perder esse papel (parece uma notinha de supermercado), pois poderá precisar dele mais tarde. Levando o passaporte, você recebe o carimbo, e isso é útil quando você se apresentar à imigração de outros países no futuro, para mostrar que você tem idoneidade (não é um quesito objetivo avaliado na maioria das vezes, mas pode fazer o oficial ter boa vontade com você).

Na saída da área de desembarque você passa por um posto do Banco da Argentina, onde se pode comprar pesos. Fala-se muito das casas de câmbio e do câmbio negro (passei pela Calle Florida, onde a cada 5 metros tem alguém gritando "cambio!", de maneira tão natural que colocaram esculturas decorando a rua com borboletas de ferro onde de lia a palavra "cambio" nas suas asas), mas sou quadrado e fiz tudo da maneira legal. O táxi, cuja viagem foi tão curta, ficou salgado. O Uber em BA cobra metade do valor dos táxis pretos e amarelos.

Eu reservei um quarto no Rochester Concept, no chamado Microcentro. Como fiz em Londres, mapeei tudo que eu queria ver na cidade, medi distâncias, avaliei custos-benefícios, praticidade (presença de farmácias, restaurantes, lojas de conveniências, mercados), acesso ao transporte, comentários sobre a segurança aqui e ali, etc. O Rochester encaixou-se perfeitamente nas nossas pretensões e no nosso orçamento. Cheguei tão cedo que teria que esperar ainda 5 horas para dar entrada no hotel, então deixamos a bagagem lá guardada e fomos dar uma volta.

Um evento que seria central na viagem era o Cirque de Soleil, cujo espetáculo Kooza estava na cidade. Então saí com minha esposa para um café da manhã modesto (eu perdi, na Calle Florida, a cafeteria que eu tinha mirado enquanto planejava a viagem, e acabamos num Starbucks). De lá fomos para Puerto Madero, onde, numa longa caminhada, passamos pelo bairro reconstruído onde antes eram armazéns e indústrias ligadas ao porto. Agora, edifícios residenciais enormes e lindos (volto a isso depois), e praças e parques sem fim dominam a paisagem. Puerto Madero é uma ilha separada da cidade por um canal, e no seu lado oposto há uma reserva ecológica, uma avenida que a margeia, e um calçadão, com estátuas de esportistas argentinos notáveis e traillers com comida de rua. O Cirque ficava quase no fim dessa rua; fomos até lá cedo para ver se a bilheteria funcionava, mas não. Já que não deu certo, e chegava a hora do almoço, paramos para comer um choripán (pão com linguiça). De Puerto Madero, seguimos para San Telmo, bairro antigo onde chegamos ao adorável monumento em homenagem à Mafalda. De lá subimos pela rua Defensa em direção ao hotel, na Calle Maipú, passando perto da Casa Rosada.

Demos entrada, descansamos um pouco, achamos um ponto de venda, e conseguimos os ingressos para o Cirque. O espetáculo foi o melhor que eu já vi, e eu vi quase todos que vieram ao Brasil, graças aos contatos da minha esposa (foi a primeira vez que eu comprei ingressos para o Cirque). Fomos de Uber, mas voltamos novamente a pé. À noite, todos os restaurantes de San Telmo pareciam estar exibindo algum show de tango, pelo que se ouvia da calçada. Subimos pela 9 de Julio, antigamente a avenida mais larga do mundo - os canteiros entre as pistas largas são verdadeiros parques, e você pode demorar uns 2 minutos para atravessar ela inteira, sem contar o tempo de esperar o sinal fechar, porque ele vai fatalmente abrir enquanto você atravessa, tão grande é a distância de uma calçada a outra. A avenida excentricamente larga, contudo, permite que esse, que é o centro nervoso da cidade, tenha um cenário aprazível; ao invés de prédios colados uns nos outros e com vistas uns para os outros, e uma sombra eterna lá embaixo, vê-se o céu e o horizonte, e um panorama de parte da cidade do ponto mais alto da avenida. As avenidas Paulista e Presidente Vargas parecem claustrofóbicas e deprimentes em contraste.

Um adendo oportuno: a opção de estruturação urbanística de Buenos Aires contrasta muito com as de Rio de Janeiro e São Paulo. Enquanto nas capitais brasileiras, vale tudo para se aproveitar ao máximo o espaço e acomodar o máximo de pessoas possível no menor espaço possível, com todas as consequências para a mobilidade urbana que isso causa - ruas estreitas e excessivamente engarrafadas, transporte público cronicamente insuficiente, cenários fechados, ocupação desordenada, arquitetura meramente utilitária, poucos espaços públicos aprazíveis - em BA optou-se pelo bem estar dos habitantes. A cidade é dividida em quarteirões de tamanho regular, o que resulta em ruas perfeitamente paralelas que vem e vão e são interconectadas por transversais, dando opções e minimizando afunilamentos no trânsito (sem falar na malha metroviária, que conta com 103 estações e 7 linhas, além de 6 linhas de trens interurbanos que chegam à cidade em mais de uma estação terminal). Até para a ordenação dos endereços a regularidade dos quarteirões é totalmente adequada - cada quarteirão, com aproximadamente 110 metros de lado, compreende 100 números. Há grandes espaços abertos onde, no Brasil, a especulação imobiliária forçaria à sua transformação em condomínios ou edifícios comerciais. E mesmo onde isso aconteceu, como em Puerto Madero, houve a preocupação de transformar o novo bairro num "bairro-parque", convidativo e acessível, até mesmo para pessoas de baixa renda (existe mesmo uma favela na ilha, e os moradores desfrutam dos mesmos espaços públicos dos "novos ricos"). Sem falar na conservação da arquitetura do século XIX e início do século XX e no apreço pela arquitetura moderna, em contraste com os horríveis caixotes de concreto bege que se acotovelam colados uns nos outros nos bairros mais nobres do Rio. É uma cidade bonita de se olhar em todos os aspectos.

No dia seguinte tomamos o café da manhã do hotel (que dizem as avaliações ser meio pobrezinho, mas como eu sou mais pobrezinho ainda, estava de muito bom tamanho) e seguimos com destino ao Jardín Japones, em Palermo. A mais de 6 km dali. A pé de novo. Mas como íamos a pé, tracei algumas paradas bacanas: a Praça San Martin, a maravilhosa livraria El Ateneo (montada num grande teatro erguido há quase 100 anos), uma parada para um café e sanduba numa Havana (não podia faltar), supermercados (para comprar alfajores!), e o Jardim Botânico (muito modesto mesmo diante de alguns parques públicos locais). O Jardim Japonês é pago, mas é um lugar realmente belíssimo, onde transparece um cuidado minuciosíssimo com as plantas, na questão da jardinagem e do paisagismo. E pegamos ainda as folhagens coloridas do outono, então o cenário era de tirar o fôlego - fôlego que precisávamos para voltar tudo de novo.

Nesse dia, enquanto caminhávamos pela longa Avenida Santa Fé, reparamos nas fachadas dos prédios, dos mais antigos aos mais modernos, sempre elegantes e bem acabadas. Ao longo da avenida, os prédios são desses com comércio no térreo. No Rio, as portarias desses prédios são quase secretas, muitas vezes você precisa procurar bem uma portinha modesta entre uma loja e outra, levando a um corredor quase sempre escuro; em BA, as portarias dos mesmos prédios são lindíssimas, parecem portarias de hotel, convidativas, iluminadas, acarpetadas, com portas largas, e todos os detalhes em metal absolutamente bem conservados (muitos possuíam painéis de interfone de latão dourado, com ar de anos 30, perfeitamente polidos). Em Palermo, olhando para cima e vendo a beleza da vizinhança, com suas varandas floridas e fachadas lindamente bem acabadas, pensei que se tratava de uma região para famílias de alto poder aquisitivo, e me perguntei onde morava a classe média (o que seria o Méier de lá, por exemplo). Aí olhei para os carros estacionados na frente dos prédios: carros populares, Gols e Palios, com aquela batidinha na traseira. A classe média mora ali!

Falando em classe, me chamou a atenção não tanto a presença de moradores de rua, o que eu vi até em Londres, mas a sua idade: eram muitos idosos, abuelitas sentadas no frio pedindo esmolas ou comida de cortar o coração. Ao passo em que aqui se abandona a juventude, lá me pareceu que o sistema marginaliza os idosos. Me pareceu que há uma negligência do sistema previdenciário, que não é capaz de prover o mínimo para o idoso. Aqui, tenho uma avó que vive com um salário mínimo, mas graças aos serviços públicos da sua cidade, tem uma casa bonita, com quintal, e vive bem sozinha. Também chama a atenção a "cor": quase todos com ascendência indígena, provavelmente imigrantes do interior que não tiveram sorte na capital, dominada por descendentes de europeus, enredo muito familiar nas metrópoles brasileiras.

Na volta para o centro, com o cansaço batendo pra valer, eu considerei usar o metrô para voltar ao hotel, mas descobri que não se vende bilhetes na bilheteria :P Tudo funciona com cartão magnético, adquirido nas casas lotéricas, e onde eu acharia uma lotérica em BA num sábado à noitinha? Mas tudo coopera para o bem, porque andando mais um pouco, esbarramos numa churrascaria, a Parrilla Aires Criollo, onde enfim comi o bife de chorizo com papas fritas. Minha esposa ficou com uma milanesa de frango (outra especialidade da cidade, um filé de sobrecoxa batido até ficar do tamanho do prato, mas ainda assim suculento e com um tempero que eu não consigo reproduzir em casa). O meu pedido foi, na verdade, "meio bife", o que significava um filé gordo de 300 g. Isso e a porção de batatas que dividimos foi mais que o suficiente para o jantar. Batemos o prego no hotel e a noite acabou ali. Bife de chorizo é melhor que picanha, prontofalei.

Na manhã seguinte tomamos café e pegamos o Uber para o aeroporto. Lá, finalmente, comemos uma empanada. É vital para quem vai a BA comer um choripán de rua, um bife de chorizo com papa frita, uma empanada, uma medialuna - a tradução castelhana para "croissant" - além de doce de leite e alfajor, que compramos em quantidade no supermercado do mais barato que tinha. Só faltou a pizza, já que as pizzas artesanais também são muito cotadas (mas talvez não tão divulgadas aqui, porque em todo lugar se come pizza no Brasil, e todo mundo acha que a pizza local é a melhor do mundo, inclusive a pizza de bosta do carioca). A empanada do aeroporto provavelmente não era a melhor da cidade, mas como é algo que minha mãe faz em casa em nível de excelência (com uma receita chilena, é verdade), achei essa amostra respeitável.

Além dos lugares que eu fui, há muitos museus com entrada franca na cidade, e de fato, grande parte das obras dos maiores expoentes da arte da América Latina, incluindo o Brasil, faziam parte de acervos de colecionadores argentinos, e hoje estão nos museus na cidade. Para quem curte uma cultura alternativa, tem a Recoleta, que eu apenas tangenciei, que é uma espécie de "Lapa" plana e colorida. Há muito mais o que se ver, saindo do raio do "caminhável" a partir do Microcentro, como Boca, Tigre, San Isidro, e mesmo para quem quer expandir mais, é possível pegar um barco até Montevideo ou Punta del Este. Fazendo uma avaliação de preços, os custos de alimentação em BA são bem parecidos com o Rio de Janeiro, convertendo-se os valores em reais. Os únicos ítens que são obviamente mais baratos, por causa da oferta farta, são os alfajores, os chás, as geléias e laticínios, que é o que vale a pena trazer na mala. Como foi o que eu fiz, esses 825 reais (cuja metade foi embora nos ingressos para o Cirque du Soleil!) acabaram suficientes para um casal com disposição e sem grandes pretensões passar bem dois dias e meio na cidade aproveitando o bom e o barato e voltando para casa com a mala cheia de guloseimas portenhas - cansados mas felizes.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Viagem a Londres II: Turismo!

Eu estive em Londres por 8 dias na última semana de fevereiro. A cidade me trouxe percepções sobre sociedade e economia que eu destrinchei num primeiro momento. Agora me sinto à vontade para falar de amenidades :)

Em primeiro lugar, essa viagem foi um convite do Jardim Botânico Real de Kew, parceiro do Jardim Botânico do Rio de Janeiro no projeto Reflora. Eles convidaram parte da equipe que trabalha no repatriamento das plantas coletadas no Brasil nos séculos XVIII, XIX e início do século XX e armazenadas no herbário de Kew (o repatriamento é digital, recebemos imagens desses exemplares em alta resolução, transcrevemos os dados de etiqueta, e disponibilizamos ambos num Herbário Virtual). É um trabalho grandioso que vem sendo feito com Kew desde 2012 (também existem outras parceiras, como o Museu de História Natural de Paris, o Museu de História Natural de Viena, Jardim Botânico de Nova Iorque, do Missouri, o Instituto Smithsonian, o Museu Real de Estocolmo, e mais de 30 herbários brasileiros). Como o convênio com Kew estava no fim, eles nos chamaram para apresentar o seu Jardim Botânico, toda a sua estrutura de pesquisa, o herbário, como eles operam a parte deles do repatriamento, e participar de oficinas para discutir os acertos, erros, e soluções e oportunidades apresentadas. Também participamos da edição de um belo livreto, cujo PDF ainda não está disponível (edição de 26/06: Agora está!.)

Após o convite oficial, eu me encarreguei de selecionar alguns dos nossos bolsistas que tiveram envolvimento com as diferentes fases do projeto. São bolsistas que estão há muitos anos com o Reflora (dois deles desde o dia 1), e que na maior parte do tempo viviam com uma bolsa de R$550,00, que nunca foi reajustada. Pensei que essa oportunidade seria uma forma de reconhecimento pelo empenho e dedicação ao trabalho - se verba para a ciência é algo tão extraterrestre no Brasil, reconhecimento pelo trabalho neste campo é algo que muitos nem acreditam que exista, especialmente para bolsistas, que são a classe mais baixa do mercado de trabalho e relegada pelos próprios cientistas. Eu teria ficado feliz se outros bolsistas que não estão mais entre nós também tivessem ido, por igual merecimento, mas só podia ir a equipe atual.

Recebemos diárias generosas, e negociei um hotel peculiarmente confortável e barato (So London Apartments Hammersmith), no bairro de Hammersmith, a meio caminho entre Richmond, onde fica Kew, e o centro de Londres, a 50 metros de duas estações (e 4 linhas) de metrô e um terminal de ônibus. Eu não poderia ter escolhido melhor! Preparei para o grupo e para mim uma lista de atividades que poderiam ser feitas nas horas livres, levando em consideração o dinheiro que teríamos economizando na hospedagem, nossa localização, horários de funcionamento das coisas, meios de transporte, etc.. Me preparei como um verdadeiro guia turístico local!


Preparativos:

Antes disso, o primeiro passo foi providenciar o passaporte. Eu nunca viajei ao exterior, então tive que fazer tudo do zero. A Polícia Federal funciona melhor do que a encomenda: do prazo de seis dias úteis da entrega de documentos até a entrega do passaporte, eles o fizeram em três. Sem fila (provavelmente por causa do posto em si, embora fique num shopping num bairro nobre onde acredito que todo mundo viaje regularmente e requisite o posto o tempo todo). O Reino Unido não exige visto, ele é concedido na chegada ao país. Você preenche um formulário no próprio avião, dando sua identificação, sua origem, tempo e local de estadia, motivo da viagem, e um telefone de referência. Via de regra, a imigração britânica não cria dificuldades, a menos que os dados fornecidos não confiram com o que está no passaporte, ou falte alguma coisa. O bilhete do voo de volta serve como comprovação do seu período de estadia no país. Fazendo reserva em hotel/hostel, imprima sempre a sua reserva, constando endereço e telefone do lugar, você poderá usá-los como referência também.

No aeroporto do Galeão tudo também correu bem para o embarque, apesar de um temporal ter adiado todos os voos em uma hora. O voo foi turbulento ao passar pela zona próxima ao Equador. Ao amanhecer olhei para baixo para o que pensava ser o mar, até perceber que era marrom e não se mexia: era o Saara marroquino. Mais um pouco e vi os Montes Atlas cobertos de neve.

Havia uma escala de cerca de duas horas no aeroporto de Barajas, em Madri. Ao desembarcar, tivemos que passar pela imigração local. Por algum motivo, o policial simplesmente pegou meu passaporte e carimbou num processo que durou exatamente 4 segundos, sem tempo nem para um buenos dias. Eu já estava autorizado a entrar na União Europeia! Mas duas pessoas da nossa equipe passaram por outro policial, que não carimbou seus passaportes e alertou ao grupo de que deveríamos nos encaminhar para o embarque. Aí começamos a sentir a Espanha: além do desencontro na imigração, eles também nos orientaram a ir a um portão que não era o que estava na passagem. O quiosque de informação do aeroporto tampouco sabia confirmar a informação. Na hora do embarque no portão informado, fomos levados a um ônibus interno que circulou por cerca de 15 minutos pelo aeroporto (que é enorme) até nos deixar no portão que, afinal, era o que estava na passagem! Fazia um frio curitibano, e ao longe se via o alto da serra ao norte de Madri coberta de neve (a impressão é de que deve ter feito mais frio na Espanha do que na Inglaterra, já que na volta também vi neve pelos campos espanhóis). Pelo menos deu tempo de comer um sanduíche de jamón. Eu não poderia ter deixado a Espanha sem comer jamón.

Na chegada a Londres, no aeroporto de Heathrow, a fila da imigração era longa, mais da metade de chineses. Europeus da UE pegavam outra fila e entravam com uma identificação automática. Passamos com o grupo todo de uma vez sem problemas. O aeroporto é tão grande que existe uma linha de metrô com quatro estações exclusivamente para uso interno. Já era fim de tarde quando encontramos a coordenadora do Reflora em Kew.


Impressões gerais:

A primeira providência, à qual a nossa cicerone se antecipou, foi obter o oyster, o cartão magnético que serve para o transporte público na região metropolitana da capital. Como ele funciona, eu deixo para sites especializados em turismo em Londres, nos quais eu busquei informação sobre isso antes de viajar. Então pegamos o metrô para Hammersmith. Metrô em ótimas condições, moderadamente cheio ("confortavelmente cheio", melhor dizendo) apesar de ser o horário de rush (num sábado, mas mesmo assim). Chegando a Hammersmith, localizamos o hotel, onde acertamos a questão das diárias e deixamos nossas bagagens, e as lojas mais básicas - o supermercado (Tesco), as farmácias, lojas de roupas e departamentos, e o pound shop Poundland, a loja de conveniências onde tudo custa 1 libra. Eu que não levei coisas para banheiro, e estava com um bafão, precisava de escova e pasta de dentes e um desodorante. Tudo por 1 libra. Muitos de nós compraram água ou outras bebidas, mas a água que sai da torneira é potável, de maneira que eu só gastei com bebida uma vez, para experimentar um refrigerante local (o Doctor Pepper, um refrigerante de "frutas" que parece uma mistura de Grapette com Guaraná Jesus).

Uma das primeiras coisas que vimos foi nossa coordenadora confirmando um mito: para atravessar a rua quando não há sinal, basta por um pé no asfalto e os motoristas param. Lógico que você não vai se jogar na frente de um ônibus e ele vai frear magicamente antes de te acertar, mas o pedestre tem, efetivamente, prioridade. Outra coisa que, andando pela rua, me surpreendeu foi o desleixo de muitos locais com relação ao lixo: papéis, copos, embalagens eram jogados ao chão sem sequer o constrangimento de disfarçar fazendo uma bolinha e "deixando" cair; não, era o papel aberto mesmo, o saco de biscoito, o copo com canudo e tudo. Uma coisa que chocou até os cariocas, que são muito mais porcalhões do que, por exemplo, os paulistas. E os chicletes pisados... olhando as ruas e calçadas, especialmente nas faixas de pedestres, se via marcas pretas de chicletes pisados às centenas.

Os londrinos são ao mesmo tempo brutos e atenciosos: eles andam na rua a passos largos, e não pedem licença. Se você estiver no caminho distraído, vai levar uma trombada. Mas se você pedir uma informação a qualquer um, eles vão atender você da melhor maneira possível, e se perceberem sua dificuldade com a língua, vão se esforçar para falar devagar e claramente, e talvez o levem até onde você precisa ir. Durante as atividades em Kew, a equipe deles teve grande paciência com a nossa, pela deficiência da língua que alguns de nós tínhamos (o meu inglês escrito é fluente, mas o meu conversation ainda era uma incógnita pra mim, mas saiu tão bem que eu tomava a iniciativa nas discussões dos assuntos à mesa, o que nem é da minha natureza falando português). O atendimento nas lojas, restaurantes, e dos policiais na rua é incomparável com qualquer coisa que exista no Brasil.

Chegamos tarde, e tudo que poderíamos fazer era jantar. Achamos um pub em Hammersmith (The Andover Arms). Receávamos que o preço fosse alto, porque estamos acostumados com o Brasil, em que o preço é sempre proporcional à quantidade. Mas os pratos vieram muito bem servidos. Uma de nós teve que se virar para comer uma perna de cordeiro inteira com legumes, como se fosse o Obelix. Absurdamente gostoso, a despeito do que se comenta sobre a qualidade da comida típica de Londres. E, ao contrário do que imaginávamos, mesmo sendo um pub onde os londrinos vão principalmente para beber, este tinha um ambiente familiar: música boa e baixa, assentos acolchoados, e famílias com crianças. A primeira impressão é a que ficou.

Durante a semana, de segunda a quinta, a equipe toda trabalhou em diversas atividades em Kew o dia inteiro, às vezes saindo às 19:00 de lá. Essa é uma constante que eu não preciso repetir daqui para frente. Então, vou fazer um resumo do dia-a-dia nas horas livres.


Domingo:

Acordei todo mundo de manhã, sugerindo vermos a troca da guarda, que aconteceria naquele dia às 11:30. Aproveitei e guiei todos por um caminho que nos apresentou ao Hyde Park (o "Central Park" de Londres), o Marble Arch, o centro comercial da cidade nas ruas Oxford e Regent (onde, lamentavelmente, ainda era muito cedo para entrar nas lojas, que só abririam depois de meio dia), o Piccadilly Circus, e o caminho até o St. James Park e o Palácio de Buckingham. No caminho eu ia e vinha correndo, fotografando lugares ou vendo vitrines e monumentos, e essa correria me deu um calor tal que eu andei de camiseta por algumas horas - os londrinos estavam encapotados com casacos pesados e peludos, como se estivessem na Sibéria, embora a temperatura ainda estivesse acima de 0°C. Chegando em frente ao palácio perto do início da cerimônia, nos posicionamos na fonte em frente ao portão principal, em volta da qual os guardas da rainha iriam marchar.

Eu que tenho desprezo pela disciplina militar achei tedioso ver os soldados fazendo passo de ganso. O divertido foi quando sua banda tocou algumas músicas populares (inclusive, acreditem, a abertura de Uma Família da Pesada), mas foi quando eu já estava sentindo que poderia estar fazendo alguma coisa melhor naquele momento. Quando os guardas marcharam de volta pela rua, e a via foi liberada, achamos a lojinha do palácio. Não poderia deixar de ser, tudo muito fino (souvenires, louças, bordados, cosméticos) e razoavelmente caro, tudo aprovado pela rainha. Comprei sabonetes com o cheiro da rainha para a minha mãe.

O próximo destino eram os museus - uma quadra inteira de museus, teatros, e espaços culturais em South Kensington - especialmente, para mim, o Museu de História Natural. Mas já passava da hora do almoço, e uma coisa que eu realmente não programei foi a comida (quando eu viajo, normalmente as únicas certezas que eu tenho é onde eu vou dormir e quando eu vou embora, o resto é improvisado). Paramos no caminho em qualquer lugar. Aconteceu de ser um restaurante libanês chamado Yamal Alsham. A dificuldade com a língua dos meus colegas, e restrições quanto aos ingredientes (tudo lá é feito com cordeiro, o gado bovino não é tão importante no fornecimento de carne ao inglês como é no Brasil) deixou todo mundo meio de nariz torcido. Eu, pessoalmente, teria devorado o cardápio inteiro, exceto talvez alguns pratos veganos. O ar de sofisticação do local fez, novamente, a gente temer que as quantidades fossem ínfimas, e que uma refeição satisfatória sairia caro. Eu pedi uma entrada de camarão empanado, e duas meninas pediram homus, que também era uma entrada. A gente esperava que viesse um copinho de homus e um pãozinho pra acompanhar. Amigo... pra começar, chega à mesa uma travessa com legumes e verduras inteiros para cada um preparar a sua salada como quisesse, além de azeitonas muito diferentes das que temos aqui em conserva - de cortesia! Quando chegaram os homus, eram duas cumbucas de, talvez, meio litro, regado de azeite, e duas cestas de pães com 4 pães sírios gordinhos. Isso foi nosso almoço (estávamos em quatro)! O garçon até ficou decepcionado quando pedimos a conta sem pedir um prato principal.

Abastecidos, fomos ao Museu de História Natural. Esse foi particularmente um sonho realizado; além de ser um dos maiores e mais ricos museus de biologia do mundo, desde antes de me alfabetizar eu devorava livros sobre dinossauros, e em alguns deles havia fotos de fósseis que até hoje estão em exposição no Museu. É como se eu tivesse sido preparado para isso. Passei umas 4 horas lá dentro, e não consegui ver mais que um quarto do primeiro piso. Mas consegui ver os dinossauros! Acabei expulso pelos guardas que eu estavam fechando o museu.

De lá encontramos outra parte do grupo que se separara a caminho do Palácio de Buckingham e visitara o museu de arte Victoria & Albert, logo ao lado. Decidimos encerrar indo até o Big Ben. Descemos na estação Westminster, e ao sair dela, demos de cara com o rio Tâmisa (pela primeira vez), o prédio do County Hall do outro lado, e a London Eye (a roda gigante). Enquanto as pessoas posavam para foto, eu olhei para trás, e dei de cara com o relógio da torre, que nem tínhamos notado ainda. Mais fotos. Atravessamos a ponte de Westminster e percorremos o pier junto ao County Hall. Os meninos compraram entradas para uma série de atrações para o sábado seguinte, incluindo a roda gigante. Eu que gosto muito de ficar com os pés no chão, fiquei de fora (sábado seria o meu dia). Terminamos comendo um clássico fish & chips (peixe frito com batata frita) por ali mesmo. Ao final do dia, foram mais de 9 km percorridos a pé, só pelas ruas (a quilometragem dentro do Museu, só a vigilante estátua de Charles Darwin sabe).


Segunda-feira:

Depois de um dia cheio, em que conhecemos Kew pela primeira vez (mas não muito, nossa agenda nunca abria espaço para um passeio pelo parque), fui às compras em Hammersmith. Na verdade, comprei uma ou outra coisa no Tesco, principalmente um chá de assam, que se tornaria o meu energético no café da manhã até o fim da viagem - e eu iria a Londres e não tomaria chá? Aliás, o frigobar do quarto tinha, de cortesia, copinhos de leite vedados como iogurte, na medida que eles usam para uma xícara de chá. Achei o detalhe adorável. Também comprei um queijo local que parecia um cheddar, bem saboroso, e guardei no frigobar.

Uma coisa sobre o supermercado é que se você vai pagar no cartão, você pode se dirigir a máquinas que ficam separadas dos caixas, onde você passar os produtos no leitor, e depois paga com o cartão. Os caixas são apenas para quem paga em dinheiro. Com isso, embora o mercado fosse cheio, as filas eram insignificantes.

Como era noite, e desde sexta estava abusando da minha saúde, preferi dormir cedo. Deixei os mais novos saírem e se divertirem por aí.


Terça-feira:

Pela primeira vez andamos no ônibus de dois andares (no andar de cima, claro). Percebemos que o tempo de viagem do ônibus até Kew era o mesmo do metrô (é incrível como eu não vi congestionamento em lugar algum a semana toda), então para Kew passamos a usar só os ônibus.

Saímos tarde de Kew, e resolvemos, de sopetão, conhecer o Soho, o bairro boêmio que seria algo como o "Baixo Leblon" de lá (chamávamos Hammersmith de "Méier" de Londres). O Soho foi um bolsão de miséria em Londres até o começo do século passado, e muitos prédios que constituíam cortiços (com pátios internos) entre ruas estreitas de pedra continuam ali, e hoje hospedam restaurantes finos, pubs, casas de show, teatros e lojas de marca. Topamos com o The Crown, pub que anuncia na porta seu passado como casa de concertos e lugar onde Mozart, aos nove anos, apresentou-se ao lado de sua irmã. Eu tinha que entrar lá. Jantamos. A comida tinha um jeito de "padronizada", porque o pub, como a maioria dos pubs, pertencia a uma rede. Mas deu para o gasto, e ficamos todos felizes. Andamos pelas ruas à noite, vendo as luzes, a movimentação das pessoas, fizemos uma parada em outro pub, The Clachan (da mesma rede do The Crown), onde os meninos tomaram mais alguns pints. Achei um sarro estar na night do Soho, eu que nem saio pra comprar um pão à noite.

Voltamos pela Regent Street, e notamos um camarada nos seguindo. Diferente das outras pessoas, que estavam voltando do trabalho com suas pastas, bolsas, e mochilas, ele não carregava nada, parecia alheio, à toa. Mudamos o ritmo do passo nos afastando das paredes, ele passou por nós, disfarçou, ajeitou uma meia, voltou, deu mais meia volta, e continuou nos seguindo. Fez isso mais uma vez. Quando surgiu a oportunidade atravessamos para o outro lado, dando um perdido nele. Mal sabia ele que estávamos em quatro, e que moramos no Grande Méier, mané.


Quarta-Feira:

Pela primeira vez demos um rolê pelo Jardim Botânico de Kew (porque estava na programação), guiado por uma brasileira que trabalha lá na parte de conservação. Conhecemos as estufas onde cultivam espécies de climas específicos (tropical úmido, tropical seco, deserto, etc., cada estufa rigorosamente climatizada de acordo com as necessidades das espécies) com objetivo de preservar e reproduzir espécies ameaçadas de extinção. Também fomos levados uma das principais estufas de exibição - na mais nova delas havia uma grande exposição de orquídeas brasileiras, embaraçosamente representadas por híbridos asiáticos e sambas-enredo no som ambiente (isso porque foi um brasileiro que montou a exposição). Mas mesmo assim o tempo era tão apertado que nem deu para entrar na estufa de plantas alpinas que fica logo ao lado. Foi o dia em que conseguimos pegar a loja de Kew ainda aberta (compramos bastante coisa; apesar de pertencer à Coroa Britânica, Kew não recebe verba pública, e sua receita vem da bilheteria, da loja, e de cursos e oficinas oferecidas ao longo do ano, além de investimentos individuais em projetos de cada setor da instituição)

Ao final do dia, resolvi passar no mercado novamente e comprar algumas coisas, e depois jantamos num Pizza Hut em Hammersmith. Lá as pizzas tem um preço razoável, não o seu peso em ouro como no Brasil. Além disso, existe todo um buffet de saladas e aperitivos, que é cortesia da casa. Pedi uma chamada Blazin' Inferno, com peperoni, habaneros e jalapeños fatiados. Uma delícia na entrada, um sofrimento na saída.


Quinta-Feira:

Eu estou escrevendo tudo isso com dois meses de atraso, e é realmente difícil lembrar de tudo, pelo menos em ordem! Nesse dia, visitamos a grandiosa Palm House, mas eu jurava que tinha sido no dia anterior (as fotos datadas no celular foram minha cola aqui). Palm House data do século XVIII e simula um clima tropical úmido para cultivar principalmente palmeiras. Em cada extremo da estufa tinha escadas espirais que subiam até uma passarela que circunda a estufa, oferecendo a visão na altura da copa das árvores. Descendo as mesmas escadas, demos com uma galeria subterrânea onde existem aquários de algas - também, cada aquário simulando um tipo de ambiente aquático/marinho, para exibir toda a diversidade de macroalgas que existe. Fiquei extasiado com os aquários de algas! Se é difícil atrair investimento e público para aquários com bichos, imagine de algas! Até por causa disso nos atrasamos para um dos compromissos à tarde.

Curtimos o por do sol da varanda do salão de chá de Kew, com vista para o Tâmisa, e fomos jantar com os brasileiros que trabalham em Kew num restaurante espanhol em Richmond, o Don Fernando's, onde parte da equipe falava português de Portugal. Comida abusivamente deliciosa. Eu me lembro de ter pedido um prato (a maioria ficou nas entradas, que incluía um queijo espanhol empanado que era um crime de bom) mas nem me lembro o que era, só lembro que era bom demais. Ainda sobrou um espaço para camarões al pil pil (camarões fritos no azeite com alho e pimenta, que eu preciso fazer em casa!).

Chegando a Hammersmith, fui mais uma vez ao supermercado. Passei a semana toda procurando um certo biscoito amanteigado para uma amiga no Brasil, e fiz mais uma tentativa, dessa vez num Sainsbury, já que no Tesco não tinha mesmo (fui achar esse biscoito em Heathrow, antes de embarcar para o Brasil). Acabei enchendo duas sacolas de compras (lá você paga pelas sacolas se não trouxer as suas), quase tudo de besteira. Gastei 40 dinheiros nisso. Ainda passei na Poundland em frente e aproveitei a viagem para comprar coisas que são absurdamente caras aqui no Brasil - e que além de baratas lá, são absurdamente mais gostosas do que os similares que temos aqui, como uma certa bolacha coberta de chocolate num dos lados, cujo produto similar mais comum aqui é o Calypso, que tem menos da metade do peso líquido, é mais caro mesmo convertendo a libra em real, e ridiculamente pior. Acabei com uma montanha de gostosuras.


Sexta-Feira:

O programa do dia era ir a Wakehurst Place, em Haywards Heath, no sul da Inglaterra. Era uma viagem de trem de mais de uma hora para o interior, mais uns 15 minutos de ônibus até o local (a cidadezinha também tem ônibus de dois andares, e até com wifi) . Wakehurst é uma antiga propriedade rural, cuja sede é uma mansão de pedra da era elizabetana. Pertence hoje à National Trust, e Kew administra o local em troca da sua conservação e de benefícios aos associados daquela fundação. Wakehurst é de uma beleza cênica que eu não vi igual. Por causa do solo diferente do solo aluvial do Tâmisa, onde fica o Jardim Botânico, em Wakehurst se pode plantar espécies que não conseguem crescer em Kew. Então ali eles compuseram canteiros e bosques inteiros de espécies de todos os continentes. Kew também mantém o Banco de Sementes do Milênio, um centro de estudos avançados em sementes e germinação construído sobre o banco de sementes propriamente dito, que é um bunker blindado à prova de bombardeios nucleares. O objetivo de servir como um reservatório genético da vida vegetal do mundo é levado muito a sério!

O restaurante de Wakehurst funciona no antigo estábulo atrás da mansão... amigo, aquela barriga de porco com cassoulet de feijão branco foi de arrasar.

Ao final do dia decidi me separar do grupo e sair sozinho por aí. Nos separamos na turbulenta estação de Clapham Junction, mas eu não tinha nenhum plano em mente. Olhando em volta, tentando sair do fluxo de pessoas, vi uma estação onde sairia trem para London Bridge, no centrão de Londres. Embarquei, e nem sei se poderia ter feito com o meu oyster, já que aparentemente eu peguei um trem intermunicipal que não estava nos mapas de metrô.

Nessa noite fazia frio, algo flutuando em torno de 0°C. Atravessei a London Bridge, e à direita vi a Tower Bridge, e decidi ir naquela direção. Andei para o leste na margem esquerda do Tâmisa, passei por um monumento lembrando o grande incêndio de 1666, que acredita-se tenha começado naquele mesmo local. Passei pela Torre de Londres, antiga fortaleza-presídio destinado aos prisioneiros mais notórios do reino, e onde hoje estão guardadas as jóias da coroa. A ponte (que se chama Tower Bridge por causa da Torre de Londres ao lado) é belíssima, uma ponte pênsil com duas torres estruturas e cabos de ferro e aço pesadíssimos, toda iluminada. Ela liga um lado ao outro do centro antigo de Londres. Na margem direita, descendo a ponte, há uma rede de vielas antigas, exclusivas para pedestres, e junto ao rio um pier onde chegam navios turísticos, com restaurantes finos e hotéis. O frio e o celular descarregado me obrigaram a fazer uma parada numa Starbucks para achar uma tomada e tomar um chá quente à vista da ponte. Mais tarde experimentei uma pizza na Pizza Express (uma espécie de Pizza Hut londrina). Atravessei a ponte mais uma vez para achar uma estação de metrô para voltar a Hammersmith com um sentimento de satisfação: "eu dominei esta cidade".

Uma pena que eu tenha estado tão próximo do Globe Theater, onde Shakespear encenava suas peças, mas estava sozinho à noite, o frio estava vencendo a minha resistência e eu estava preocupado com o horário em que o metrô para de funcionar, e eu decidi não ir.


Sábado:

Último dia em Londres. Sem obrigações, resolvi usar o dia para tomar algumas providências: precisava de uma mala nova para guardar todas as minhas compras. Sério, fui pra lá com uma mochila nas costas e voltei com uma mala de quase 1 metro de altura. Me servi da Primark de Hammersmith, uma espécie de Renner obscenamente barata. As roupas (possivelmente a maioria fabricada por escravos em Bangladesh) são absurdamente baratas. Levei um sapatênis por 3 libras. Converta isso em reais (a libra vale hoje perto de R$5,10) e você não compraria nem um cadarço com isso no Brasil. Comprei a mala, algumas roupas. Voltei ao hotel, passei uma hora tentando acomodar as coisas dentro dessa malona. Fechei com ela já explodindo, o que era uma pena, como eu veria mais tarde.

Resolvida a questão da mala, fui em direção ao último lugar que eu absolutamente não poderia deixar de ver em Londres: o Museu Britânico, um dos principais museus de arqueologia do mundo. No caminho, desci na Oxford Street, onde comprei algumas lembranças, e voltei à Regent para comprar um cabo na loja da Apple. Fiquei bem confuso dentro da loja: além de cheia, ela não tinha "começo" e "fim". Tinha os mesões com os produtos em exibição (vi pela primeira vez o modelo gigante de iPad e os relógios), mas não tinha caixas. Achei o cabo e perguntei a um rapaz como eu fazia para pagar. Ele me levou a um dos mesões, mexeu alguma coisa em baixo dele, tirou um celular do bolso, pegou meu dinheiro, abriu uma gaveta no mesão, me deu o troco e imprimiu uma nota com uma maquininha acoplada no aparelho. Muito moderno. Me arrependo de não ter comprado o BB8 que funciona acionado por um aplicativo de celular. Era pouco mais de 100 libras (aqui são R$3000,00!). Mas a minha mala realmente estava explodindo e fiquei com medo de não ter como guardá-lo.

Eu sentia o tempo passar, e pulei todas as outras coisas que eu poderia ver no caminho (a enorme loja de brinquedos Hamley's, a histórica loja de departamentos Selfridge's, e a Baker Street, endereço de Sherlock Holmes) para poder passar mais tempo no Museu. A pequena fração que eu vi nas horas que eu fiquei no Museu de História Natural me ensinaram a lição. No entanto, ainda parei para almoçar: uma lanchonete servia "Brazilian black beans", que, sinceramente, lembra bem pouco o feijão carioca :P

O Museu Britânico é o melhor lugar do mundo. Um enorme palácio neoclássico com um átrio gigantesco, onde foi erguida uma torre cilíndrica, onde funcionam lojas, banheiros, lanchonetes e pontos de informação, e todo o espaço entre a torre e o prédio revestida por um teto armado de vidro e aço. Nem sei quantos andares tem. Entrei por um portão que dava a uma ala onde havia uma exposição temática sobre arte islâmica. De lá, passei à ala sobre Américas, indo dos esquimós até a Mesoamérica, com relíquias que eu já conhecia dos livros. Me desviei para um corredor semelhante a uma biblioteca, que homenageia alguns dos exploradores que contribuíram para o museu e expõe livros, estátuas e artefatos de diversos lugares e épocas. Por ali saí para o átrio central e passei à coleção egípcia. Logo de cara, a Pedra de Rosetta, onde está gravado um texto em três alfabetos distintos (hieroglífico, demótico, e grego), e que permitiu aos arqueólogos decifrarem o significado dos hieroglifos egípcios. Eu precisava ver aquilo com meus próprios olhos.

Passei apressado pela coleção egípcia, porque trabalhei muito tempo no Museu Nacional do Rio de Janeiro, e aquilo não era exatamente novidade para mim. Mas me detive por horas nos corredores da coleção assíria, onde eles reproduziam os painéis em baixo relevo que ornavam os palácios imperiais das diferentes fases do império assírio. Da Assíria passei à Grécia, com sua história, do povo das Cíclades e a civilização micênica até o período clássico em obras de arte, cerâmica, estátuas, armas, adornos, que reproduziam em si mesmos cenas da mitologia e da história da Grécia Antiga. Havia salões onde templos inteiros foram transportados de seus sítios originais e remontados. Vi com meus olhos os resquícios do Templo de Ártemis de Éfeso, as estátuas e frisos do Mausoléu de Mausolos de Halicarnasso, duas das 7 Maravilhas do mundo antigo. Em dois ou três salões, estavam expostos fragmentos de colunas e estátuas do Parthenon (que foi pelos ares em 1687, quando os venezianos atacaram o lugar, usado como um paiol pelos turcos), e em outro, bem maior, o que restou dos frisos e esculturas, de autoria do genial escultor Fídias, que adornavam o templo. Não podia, mas eu fiz questão de passar a mão no capitel de uma das colunas, só pra dizer que eu toquei no Parthenon.

Estava extasiado, mas achei, depois de cinco horas, que era hora de avançar no tempo - eu ainda estava no mundo de cerca de 400 a.C.! Subi pela torre central do museu e descobri uma passarela para uma ala no último andar onde estava a coleção da Mesopotâmia do 7º ao 2º milênio a.C., o berço da civilização! Mas era justo a hora de fechar o museu... Andei a esmo depois até a estação Blackfriars (sobre a qual funciona um pub homônimo, e aí não sei quem deu nome a quem) e voltei de metrô a Hammersmith, onde reagrupei com o pessoal. Fomos a um pub por lá mesmo para uma saideira rápida (os bares fecham às 22:00, no sábado!), porque precisaríamos estar no aeroporto às 3 da manhã.

quarta-feira, 23 de março de 2016

Viagem a Londres I: Custos de vida

Enquanto estava em Londres, observando os preços das coisas, eu ponderei em um post do facebook (e este texto aqui é basicamente o post que eu publiquei lá uma semana depois) que possivelmente existisse uma espécie de proporcionalidade entre os valores de lá e daqui, desconsiderando a diferença de câmbio. Por exemplo, que um almoço bem servido lá, que custa de 12 a 15 libras, equivaleria a um PF bem feito num restaurante sem estrelas daqui, algo em torno de 15 reais. E que, extrapolando para o resto das coisas, uma pessoa que vive com 2000 reais de salário aqui teria, nessa teoria, um padrão de vida similar a alguém que ganhe 2000 libras por mês lá. Porém, essa tese foi construída de suposições sobre suposições, sem qualquer fundamento teórico nem pesquisa.

Bom, quando cheguei no Brasil eu fiz alguma pesquisa.

Existem dois pontos que os neoliberais insistem que são fundamentais para aquecer a economia e proporcionar bem estar social (ou o que quer que eles entendam por isso) e igualdade de oportunidades: o enfraquecimento ou abolição do salário mínimo, que onera as folhas de pagamento, e a carga tributária embutida nos preços dos produtos. Sazonalmente eu vejo insinuações de que o estabelecimento por lei de um valor mínimo para os salário desflexibiliza as relações de trabalho e obrigam o empregador a pagar mais do que um serviço deveria custar, onerando a produção e restringindo sua capacidade de absorção de mão de obra, além de aumentar os custos com o funcionalismo público, cujos salários são calculados na base do salário mínimo e, em tese, reajustados automaticamente. E, com muito mais frequência, vejo a carga tributária brasileira ser pendurada na cruz como a razão pela qual pagamos preços de imóveis pelos carros, e de viagens à lua pelos imóveis, além de preços altos de bens de consumo e alimentos em relação ao que se vê no exterior.

Bom, os dois dados que eu pesquisei a respeito no Reino Unido embaralham muito essa argumentação.

Naquele país os salários não são mensais (embora possam ser pagos mensalmente de acordo com as conveniências de ambas as partes). Lá paga-se por hora trabalhada. Mas existe um salário mínimo por hora (e também por idade), que atualmente é de 6,7 libras esterlinas. Uma pessoa acima de 21 anos que trabalhe 40 horas por semana receberá ao final do mês pelo menos 1072 libras. Mil e setenta e duas libras, obrigatoriamente, enquanto no Brasil o salário mínimo está em R$ 880,00. Isso também quebra a minha tese da proporcionalidade: um assalariado britânico recebe mais dinheirinhos do que um brasileiro.

Vamos para o custo de vida. Não vou entrar no mérito do valor dos imóveis, dos aluguéis, e das taxas de luz, água, gás, etc, porque não vivenciei nem estudei isso. Tenho a informação de que, aí sim, existe uma proporcionalidade dos valores entre Londres e Rio (duas das capitais reconhecidamente mais caras do mundo, no valor da terra). Tipo, um imóvel que custe 1000 reais por mês de aluguel no Rio seria semelhante em estrutura e localização a um imóvel de 1000 libras mensais em Londres. Mas isso é informação de boca a boca com quem estava morando lá. Nesse aspecto, um assalariado britânico, de qualquer maneira, está mais bem aparado financeiramente para escolher um imóvel adequado às suas necessidades do que um carioca. Além das óbvias e grosseiras diferenças na qualidade de vida na periferia londrina em relação à periferia (que é social, não geográfica) da capital fluminense (só para se ter uma ideia, 1000 reais é o valor de um apartamento de 50m² e 2 quartos no bairro de Lins de Vasconcelos, onde os tiroteios são cortesia).

Passo então para o custo de alimentos e bens de consumo. Nos hortifrutis dos supermercados, frutas, legumes e verduras, que nesta época do ano são basicamente importados, valem centavos por quilo. Centavos. Pence, na verdade. Bananas importadas do Equador ou do raio que o parta valem centavos. Preço de banana, literalmente. Veja no hortifruti da sua rua quanto está o quilo da banana (no Rio, a banana mais barata quase sempre é a banana d'água). Alimentos industrializados e bebidas custam, ao assalariado londrino que chega ao fim do mês com quase 1100 libras na conta, 1, 2, 3 libras cada item. Existem lojas inteiras de artigos para casa, banheiro, e comida por 1 libra, os pound shops. Entendam, não são lojas com coisas a partir de 1 libra, como as lojas daqui de 1,99, em que tem tudo *a partir de* 1,99. Lá 1 libra é o preço de 100% dos artigos, nada a mais, nada a menos, e ali você já pode se abastecer razoavelmente. Um amigo meu comprou uma cerveja belga por 2,99 num supermercado, a mesma cerveja que no Rio custa quase 70 reais. Entrei numa loja da Apple e comprei um cabo por 15 libras, o mesmo cabo que no Brasil pode chegar a 95 reais. Nessa loja, na opulenta Regent Street (a Oscar Freire de lá), encontrei um BB-8, o novo droid da série Star Wars em miniatura, que rola, faz barulhos, reclama e etc. controlado por um aplicativo para i-phones e i-pads. Ele custava pouco mais de 100 libras. No Brasil ele está chegando por 3000 reais.

A reação imediata que você teve é "ah, nós pagamos absurdos de impostos, por isso tudo é sempre mais caro". E aí entra minha segunda pesquisa rápida. No Brasil, os impostos cobrados sobre toda a riqueza produzida no país, ou seja, a porcentagem média acrescida ao valor final de qualquer produto no mercado nacional era, em 2012, de 34,4%. É alto. Nos EUA, por exemplo, esse valor chega a 26,9%, e eles acham isso tão absurdo quanto pagar o imposto do chá ao rei da Inglaterra, e em mercados mais competitivos, como Taiwan, é de 12,4%. Só que no Reino Unido a carga tributária é de 39%, e ainda é mais baixa do que em países como Holanda, Itália, França e Dinamarca (onde isso chega a quase 50%!). Nem considerando os impostos sobre importações, NÃO EXISTE IMPOSTO SUFICIENTE que justifique que algo que custa (no valor do varejo!) 550 reais ir para a loja por 3000, ou uma cerveja que custe (no varejo!) 17 reais ser vendida por 70, ou um toblerone de 400 g de 1 libra por R$30. Se eu, pessoa física, comprasse essas coisas lá e vendesse pela metade do que elas valem aqui, eu já teria um lucro estupidamente alto! Mesmo pagando imposto!

Então quando vc paga 3000 reais num brinquedo que vale 6 vezes menos, você está sendo feito de trouxa. E não é pelo governo, cujos impostos jamais alcançam 300% do valor original de qualquer coisa. Nem na Dinamarca! O chamado "custo Brasil" não tem a ver com governo nem com política. Então, você que reclama do governo pq seu Playstation custa 4 mil reais, ou aquela metade de carro da Mercedes que custa 50 mil, ou que vc está pagando quase 30 mil por uma versão nacional bosta de um Chery QQ quando o importado da China completo valia menos de 20, você está sendo feito de trouxa duas vezes: a primeira quando paga esse valor, e a segunda quando quem está roubando você na sua cara te convence de que a culpa é do governo.

Se quer reclamar sobre os impostos, faça como eu e os milhões que estavam nas ruas em 2013 e você sorria quando a polícia baixava o cacete em cima: exija o retorno em serviços públicos do que é pago. Agora, quanto ao preço justo das coisas, pense que o objetivo de vida dos neoliberais é ver a iniciativa privada ainda mais desregularizada, e boa sorte nesse mundo aí.

terça-feira, 1 de março de 2016

O caminho

Alguns aspectos das nossas personalidades são inatos, produto de maneiras muito particulares pelas quais as nossas redes neuronais foram construídas desde a concepção. Muitos outros são derivações conscientes ou semi-conscientes desses estados primitivos, quando refletimos sobre nossas atitudes e reações, e como somos percebidos pelos outros. E um pouco, são realmente escolhas que fazemos para nossas vidas.

Então, se eu for traçar uma sequência coerente para definir quem eu sou, eu teria que começar por dizer que nasci epiléptico, que isso perturbou um pouco a minha auto-confiança nas minhas relações interpessoais desde a infância, que isso me levou a cultivar um estilo de vida fundamentalmente individualista e emocionalmente independente (embora não necessariamente maduro :^P), que me levou, eventualmente, a mergulhar em processos de auto conhecimento, que me levaram ao taoísmo, e me levaram ao anarco-pacifismo.

A perturbação da minha auto-confiança num período formativo, como a infância, determinou que eu me tornasse muito tímido. E ainda sou. É uma timidez que me limita severamente em situações em que preciso lidar com outras pessoas, particularmente pessoas desconhecidas. Essa insegurança resulta em um loop interminável de questionamentos e pré-julgamentos, que geram uma ansiedade que pode beirar ao pânico, e que me impede de dar um passo diante de situações simples. Uma solução que encontrei, já na vida adulta, foi suprimir essa intelectualização (o processo de questionamentos e pré-julgamentos de mim mesmo) e agir por impulso. Claro que agir meramente por impulso é perigoso, porque isso desconsidera o risco e as possíveis consequências de cada ação. É aí que entra o taoísmo.

O taoísmo consiste, na sua coluna vertebral, em compreender as forças (físicas, se lhes aprouver) que regem o universo; compreender que cada ação, cada pensamento ou palavra dita reverberam pelo universo. E que existe um fluxo de energia e matéria que segue uma ordem inexorável, contra qual a luta, infrutífera pela finitude da existência humana, nos leva à frustração e ao sofrimento. Que o Tao - palavra que acolhe diversas traduções possíveis, como "caminho", "paz", "estrada", "correção", "deus", "estreiteza", "maneira", etc. - não opera todas essas forças por vontade, plano ou julgamento, características limitadoramente humanas. O Tao é o que é, e faz o que faz, porque não existe outra maneira.

Para seguir o Caminho, o taoísta é encorajado a seguir o exemplo do Tao e suprimir seu ego a ponto de poder ver, ouvir e sentir além de si mesmo, pois assim ele pode agir em consonância com o que se desenrola á sua volta. É aí que ele me encontra.

Nos últimos dois meses eu estive ocupado com uma viagem a Londres com alguns colegas de trabalho. Sobre a viagem em si eu falo em outro post. Mas enquanto me preparava, fiquei levantando informações sobre lugares para se ver, meios de transporte, a logística toda para que todo mundo pudesse aproveitar o que mais gosta na cidade. Logo de início eu os alertei: quando eu viajo, a única coisa que eu sei é quando e como ir embora; o resto sai no improviso. Alguns colegas até procuraram entender como alguém que trabalha metodicamente com eles (sou seu supervisor!) tem uma atitude tão aleatória e impulsiva.

Eu tenho esse comportamento errático quando estou em perfeita calma. "Errático" é, na verdade, quando eu estou seguindo o fluxo das coisas, quando estou calmo, quando suprimi meu ego e parei de "encucar" com meus problemas. É assim que alguém com um histórico de vida de constrangimento em público consegue palestrar para audiências de duzentas pessoas, representar, enfiar-se numa multidão em protesto (pânico de multidões é outro problema grave!) ou desembaraçar-se num país estrangeiro e numa língua que nunca de fato praticou (leio e escrevo inglês com naturalidade, mas nunca exercitei meu "conversation").

sábado, 22 de agosto de 2015

Cocos em volta de uma lata de lixo vazia

Eu escrevi isso há algumas semanas:


A foto é ruim porque foi tirada à distância já ao anoitecer. Fim do dia na Praia do Pepê. Até uma hora antes, estava cheio de gente. Naquele momento, o que restou: uma lixeira cercada de cocos vazios. Toda a área da areia em frente ao deck de uma paleteria estava cheia de cocos e outros detritos. Uns barraqueiros até juntaram seu próprio lixo em torno de outra lixeira. Mas o que os banhistas consumiram ficou para trás. Apesar das lixeiras posicionadas a 10, 15 metros umas das outras, nenhuma delas aparentemente cheias que justificasse não jogar mais coisas dentro, pelo que deu para ver de onde eu estava, e pelo que eu procurei registrar na foto.

Fiquei pensando por que as pessoas não se deram ao trabalho de jogar os cocos na lixeira. Na foto eles foram displicentemente deixados em volta da lixeira, que esteve ali aberta o dia inteiro. Me ocorreu que, talvez, sejam aquelas pessoas que se justificam dizendo que estão dando trabalho para os garis (que fazem o trabalho fenomenal de deixar aquilo absurdamente limpo no dia seguinte). E me ocorreu que essas pessoas provavelmente são aquelas que delegam a outros funções que as aborrecem ou que achem indignas. A função trivial de dar o destino apropriado ao seu próprio lixo.

E pensei mais. Eram muitas pessoas na praia e muitos cocos na areia, logo, era muita gente que não sai do seu lugar sequer para dar cinco passos até uma lixeira e jogar seu lixo lá dentro. Será que essas pessoas saem do seu lugar para coisas mais importantes e mais difíceis de se fazer (como trabalhar em soluções para o bem estar coletivo de moradores e empregados dos seus condomínios, do seu bairro, da sua cidade), ou delegam isso a outros também?

Eram muitos cocos. É muita gente que estabelece essa relação de dependência quando se recusa a fazer algo que exige que ela se mova. Porque escolher não fazê-lo não elimina a sua necessidade. Então se ela se furta de discutir planos para ocupação dos espaços urbanos, por exemplo, ela delega essa função a um político. Este político, que deveria ser um representante dessa pessoa adquire uma autonomia (e, portanto, uma potencialidade de poder) que não corresponde com a sua função. A apatia do cidadão cria mandatários muito mais poderosos do que deveriam.

De repente eu entendi porque somos um povo que dá tanta bola para os políticos. Porque somos um povo (desleixado) que espera eternamente que os bons exemplos de conduta e ética venham de "cima" (DE CIMA!). Porque estamos sempre buscando por líderes e heróis que nos mostrarão o caminho ou o que fazer e que nos conduzirão como crianças aqui e ali.

Sob uma perspectiva anarquista, digo tudo isso em tom de repreensão, e convoco para um momento de reflexão sobre quem vocé é e qual o seu papel na sociedade. A quem você serve?

Cocos na areia em volta de uma lixeira.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Preconceito: o meu e o seu

Dentre as muitas causas possíveis, estive pensando como o preconceito (dos mais graves e violentos até os mais banais) tem uma raiz fincada na falta de empatia pelo outro. E aí eu me deparei com um nó lógico, porque eu não consigo distinguir o que é a causa ou a consequência: a falta de empatia, e o fechamento da visão de mundo em si mesmo, ou seja, quando uma pessoa toma a si mesma como medida de todas as coisas.

Vou pegar um exemplo, que foi o que deu ignição neste pensamento ontem, enquanto estava no ônibus, preso no trânsito, e já peço desculpas adiantadas a todo mundo (e é muita gente, acho que a maioria dos meus amigos está entre eles) que está no alvo do meu preconceito:

Tatuagens.

Luto contra um preconceito meu contra tatuagens. E embora eu não possa esperar que me perdoem por ele, ao menos eu localizei a sua causa. A causa está em mim mesmo.

Preconceito é uma reação irrefletida a uma situação que não se encaixa em um padrão óbvio. Falo de padrões porque eles são mais ou menos construídos inconscientemente na nossa mente, porque nenhum preconceito resiste à razão. É imprescindível, para que haja preconceito, que a razão esteja momentaneamente suprimida. Uso como exemplo aqui um truque que qualquer um pode fazer em casa. Vá para o banheiro e, à meia luz, olhe-se nos olhos fixamente através do espelho por uns 5 minutos. O que é uma imagem processada conscientemente no início (você, a parede atrás de você, a toalha pendurada ao lado, o vaso quase fora do campo de visão no canto abaixo, etc.) aos poucos parece obscurecer enquanto você mira seus olhos. O seu corpo e o seu rosto (assumindo que você continua fixo nos seus olhos) podem começar a parecer estranhos, enquanto tudo em volta começa a ficar obscurecido e confuso. Porque você forçou o seu cérebro a fixar a atenção em um detalhe, onde ele estabeleceu um padrão, e tudo em volta, à medida em que se afasta do foco de atenção, fica cada vez mais confuso, porque o cérebro "se esqueceu" de processar aqueles padrões, que continuam lá, e os substituiu por imagens do inconsciente ou o que quer que estivesse na fila para se expressar ali e "preencher" esse vazio cognitivo. Descrever o mundo sob a ótica do preconceito é como descrever as assombrações que apareceram no espelho durante a experiência.

Antes de voltar às tatuagens, vou contextualizar um pouco. Durante a infância e a juventude nunca passei necessidades. Meu pai tinha um emprego que pagava bem e nossa família teve algum conforto. Até meus vinte e poucos anos eu tinha esse backup financeiro em casa que fez com que eu não me preocupasse em trabalhar e conquistar meu próprio dinheiro. Eu nunca fui consumista, e, de fato, mesmo vivendo com essa tranquilidade, foi n começo da faculdade que eu comecei o hábito de economizar o almoço para guardar dinheiro para outras coisas. Eu poderia simplesmente pedir para o meu pai, mas eu sentia que não era correto. Mesmo ainda vivendo sob o mesmo teto, quando comecei a ganhar meu próprio dinheiro eu nunca mais pedi nem aceitei dinheiro dele. Minhas viagens, meu lazer, minha comida, meu transporte, meu plano de saúde, e a conta de uma das linhas de telefone de casa (a que a gente usava para internet), eu que pagava. Quando eu tinha mais do que precisava, ia para uma poupança, porque sempre tem uma emergência de última hora que exige um capital disponível (e teve!). Quando eu não tinha, eu não fazia nada disso (e, eventualmente, me desfiz do plano de saúde e do telefone, e a tal poupança veio muito bem a calhar durante a penosa fase em que todos estavam desempregados). Minhas responsabilidade com dinheiro veio espontaneamente e aos poucos, mas a minha real noção de administração de dinheiro de casa veio de uma vez quando me mudei com minha então namorada, resolvendo esse processo em apenas duas semanas, e absolutamente tudo que eu fazia para mim, para nós, e para a casa precisava caber dentro do que eu ganhava na época. Com o meu histórico de poupador (novamente a minha poupança reconstruída nos dois anos anteriores foi extremamente providencial, porque os custos todos para alugar e equipar a casa e arcar com outros custos drenaram-na completamente no primeiro momento) isso acabou não sendo um problema, e, novamente, quando o dinheiro encurtava, eu cortava onde podia.

Administrando uma renda compatível com a classe média *média* eu consigo prover a mim e minha esposa de algum conforto, mesmo que, de vez em quando, eu precise cortar alguma coisa para chegar ao final do mês com dinheiro (desde o começo do ano até receber um aumento no mês passado, eu passava metade do mês evitando de almoçar para não gastar com comida, como eu fizera no passado, porque eu sabia que era um corte no orçamento que eu, pessoalmente, podia tolerar). É tudo apertado, para que não falte nada, o que me tira a possibilidade de gastar com extravagâncias e coisas sem utilidade prática. Some-se a isso ainda que ninguém na minha casa tem tatuagens ou já considerou fazê-las, de modo que isso também entrou no meu padrão mental.

Então, quando eu vejo um cabra com um braço inteiro tatuado, imediatamente me vem na cabeça: ele vive da grana do pai (especialmente quando ele é jovem demais para construir alguma coisa sozinho), porque ninguém que viva do próprio trabalho e tenha R$ 1500,00 pra encher um braço de desenhos bota comida na mesa. Não é sempre que isso acontece, mas eu preciso me esforçar para bloquear esse pensamento

Eu sei que é horrível isso. E eu encontrei o motivo de pensar assim.

EU ESTOU ME USANDO COMO MEDIDA.

Porque eu nunca tive como dispor de R$ 1500,00 na vida para qualquer coisa que não fosse comer e morar, eu penso automaticamente, atendendo aos meus padrões mentais, que se alguém dispõe desta quantia para algo meramente estético é porque não passa necessidade, ou não é responsável pelo sustento de ninguém. Eu penso nessa quantia em termos de "compras do mês", "passagens de ônibus", "latas de massa branca", nunca em algo que não seja vital para mim ou para a minha família. E se eu não paro, começo a associar a tatuagem com vaidade, surge uma sensação de desprezo e auto-exaltação, e começo a construir uma imagem da pessoa absolutamente minha.

O tempo inteiro eu procuro combater meus preconceitos praticando o desapego a mim mesmo, uma desconstrução do que eu tenho como certo e errado. Tirando os meus próprios padrões do caminho, construídos sob uma ótica absurdamente limitada das minhas próprias experiências, eu me torno mais capaz de exercitar a empatia, e a compaixão, de "calçar os sapatos do outro", de compreender que é perfeitamente possível que eu esteja completamente errado (meu exercício começa com a pergunta "e se eu estiver errado?"), e não cair na armadilha do julgamento. Embora o caminho até a compaixão universal seja longo e eu ainda não consiga ver o seu final, essa prática alivia a minha mente quando isso evita que eu fique matutando sobre a vida dos outros sem conhecimento.

Entender de onde vem o preconceito não pode servir como justificativa para você continuar praticando-o, como se isso fizesse parte de você. Seu pâncreas faz parte de você. Você é o que você constrói. E parte dessa construção é a desconstrução do que não é bom. Não significa tampouco que você deva aderir ao que quer que seja (por exemplo, que eu deva ir a um tatuador agora mesmo). Apenas que você reconhece que as pessoas podem ter muitos bons motivos, circunstâncias e contextos para fazer o que você normalmente não faria, e que você, por outro lado, também tem suas atitudes reprováveis que, para você, fazem todo sentido. O resto é cinismo.

terça-feira, 21 de julho de 2015

Férias

Ser um bolsista acadêmico, independente do valor da bolsa, é estar no estrato mais baixo do mercado de trabalho: o único direito que você tem é o que o coordenador do projeto, responsável pela sua bolsa, considera que você tem, o que pode até ser nenhum. Minha chefe, em reconhecimento aos resultados, concedeu uma semana de folga (isso que eu chamei de férias) a todos os bolsistas do projeto. Isto foi na semana passada.

Eu tinha o sonho, desde o ano passado (quando eu "fugi" por três dias com a minha esposa, nas férias dela) de ir a Buenos Aires. Mas como eu não tinha dinheiro para viajar, decidi que passaria as férias no Rio, aproveitando a cidade como um turista. Como um turista sem dinheiro. Então roteirizei (mas nem sempre segui meu roteiro) de acordo com as ofertas disponíveis em cada dia, de modo que me apoderei da cidade. Tirando o primeiro sábado, em que fiz questão de ficar em casa de pernas para o ar, o primeiro domingo, em que tive meu dia de beleza, e a quarta, em que tive que preparar comida para a semana, todo dia fui a algum lugar ou evento legal e barato (ou de graça). Só gastei dinheiro com comida:

Segunda-feira: de posse do meu Passaporte Carioca (uma caderneta distribuída gratuitamente que permite a entrada franca em uma série de museus pela cidade, com listas de museus abertos especificamente em cada dia da semana), fui ao Centro determinado a ir a alguma exposição disponível naquele dia. Por falta de informação sobre o que estava em exposição, além da óbvia mostra de Picasso no CCBB (cuja fila torna a visita casual meio proibitiva), resolvi aproveitar que naquela semana rolava o Anima Mundi para tentar ver algum filme. Infelizmente cheguei 20 minutos depois do início de uma sessão no Cine Odeon, então peguei o livreto do festival e vi que tinha uma sessão dali a pouco no Maison de France, no Consulado Francês, de graça. Assisti O Planeta Selvagem, animação franco-tcheca muito louca com seios alienígenas de fora e genocídio.

Depois do filme rodeei o Paço Imperial, onde pedaços de lona com trechos de poesias estão espalhados pelo chão e pela fachada do prédio. De lá fui experimentar o hamburguer do Beco do Hamburguer. Jesus seria muito mais popular se ao invés de pão puro ele tivesse multiplicado esse hamburguer. Depois de lubrificar as artérias, muito satisfeito, pensei em ir para casa. Mas no caminho estava o Paço de novo, e a sua maravilhosa livraria, com títulos exclusivos e um sebo respeitável que me obrigaram a gastar mais dinheiro.

Eu teria ficado por ali e pegado um ônibus para casa, mas decidi ir até o ponto final dele, na Av. Churchill, e decidi ir pelo caminho menos óbvio. Desci em direção à estação das barcas, onde não ia desde antes de demolirem o Elevado da Perimetral. Caminhei pela calçada na beira do mar ao longo do antigo mercado da Praça XV e contornei o Museu Histórico Nacional (que eu prometi a mim mesmo ir visitar ainda este ano).

Terça-feira: Com o Passaporte Carioca, pretendia ver dois museus disponíveis naquele dia: o do Forte de Copacabana (cuja entrada, sem o passaporte, é R 6,00) e o da Fortaleza de São João, na Urca. Desta vez acompanhado da minha esposa, pelo horário, resolvemos ficar em Copacabana. O museu está expondo sobre a Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial, e tem uma exposição fixa bem cuidada sobre a história militar no Brasil. Antes do sol se pôr nós tomamos um farto chá da tarde na Confeitaria Colombo lá dentro, olhando para a enseada de Copacabana.

De lá, partimos de bicicleta para o Leblon. Antes de tomar um ônibus, caminhamos um pouco, fomos ao Shopping Leblon e fizemos a farra na loja da Lindt.

Quarta-feira: Cozinha :P

Quinta-feira: Por conta do seu trabalho como voluntária no Comitê Rio 2016, minha esposa ganhou dois ingressos para o jogo Brasil x Estados Unidos pela Liga Mundial de Vôlei (cujo preço eu nem imagino). A fase final da Liga no Maracanãzinho também era o evento-teste para a competição de vôlei na Olimpíada do ano que vem, então era a oportunidade para ver como vão ser as coisas quando chegar a hora (não tenho nenhuma crítica específica, por sinal). Fomos ao Maracanãzinho na faixa. Brasil ganhou, ganhamos camisetas e desodorantes Nivea, mas o time acabou desqualificado pela combinação de resultados da sua chave :P

Sexta-feira: Dia de voltar às raízes e visitar meus pais e ficar com meu sobrinho na Ilha de Guaratiba. Não sem antes uma passada pelo folclórico Calçadão de Campo Grande.

Sábado: Levei meu sobrinho a uma festinha de aniversário com minha esposa e ele se divertiu horrores.

Domingo: Levei minha esposa, meus pais e meu sobrinho a um concerto da Orquestra Sinfônica Brasileira na Cidade das Artes, na Barra, do programa Concertos Para a Juventude. Foi o evento mais caro dessas férias: R$ 1,00 a entrada (e na apresentação do canhoto em qualquer concerto da OSB até dezembro ganho 50% de desconto no ingresso).

Minha primeira vez na Cidade das Artes, e minha primeira vez com a OSB. Meu sobrinho tem 2 anos e meio e ficou vidrado na orquestra, e perto do final ele começou a imitar o maestro a reger. Na saída, no colo do meu pai, enquanto dizia como "fazia música" imitando o regente, ele viu os músicos saindo do prédio com seus instrumentos, e ele dizia: "tchau, músicos".

sábado, 4 de julho de 2015

Um cientista!

O prédio do herbário do Jardim Botânico tem uma porta envidraçada trancada por senha. Quando eu dobrei o corredor e fui pra porta, dei de cara com mais de 20 crianças de uns 4 anos uniformizadas. Enquanto eu pensava se voltava e saía pela portaria, uma delas apontou pra mim, encantada:
- Um cientista!
Decidi encarar. "Um cientista!" "Você é um cientista?". O professor resolveu tudo comigo ali em três palavras e dois olhares.
-Eu sou um cientista. Eu estudo plantas.
-Que planta você estuda?
-Eu estudo a planta que faz chá.
O professor interveio contando que D. João comia muito, e aí quando ficava de barriga cheia ele tomava chá, e eu completei dizendo que por isso ele plantou os pés de chá no Jardim. O professor disse para as crianças se despedirem, e cada uma disse:
-Tchau cientista!
Acho que eu vou virar tema de trabalho de casa de alguém essa semana.
 
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